Há vezes no jardim em que se conseguem belos sucessos e outras em que acontecem grandes falhas; por vezes as falhas são fruto de intensas reflexões: uma cena entre duas plantas que se revela decepcionante e, em sentido inverso, magníficos acertos devidos em grande parte ao acaso: duas cores aparentemente opostas que se associam na perfeição. Existe uma terceira alternativa, baseada na observação e no conhecimento vegetal: o acaso controlado.
![Mistura de Allium sikkimense, Elymus magellanicus, Hieracium villosum e agapantos 20140701_124857[1]](http://www.promessedefleurs.com/blogwp/wp-content/uploads/2014/07/20140701_1248571-e1404213003476-1024x576.jpg)
Mistura de Allium sikkimense, Elymus magellanicus, Hieracium villosum e agapantos, num estilo selvagem.
O acaso controlado consiste em utilizar plantas oriundas de um mesmo meio e depois encená-las. Num local soalheiro e com boa drenagem, por exemplo, irás naturalmente escolher plantas de ambientes abertos, como as plantas de prado. Quer sejam originárias da Europa, da Ásia Central ou da América do Norte, essas plantas provenientes dos mesmos tipos de habitat partilham uma fisionomia comum: um porte muitas vezes esguio, uma folhagem que oferece pouca resistência ao vento, uma inflorescência anemocórica, etc. Associadas entre si, essas plantas vão oferecer-te uma paisagem de prado, um aspeto natural mas trabalhado pelo homem. Acrescentarás a essas plantas plantas estruturantes, dotadas de inflorescências de geometria perfeita, como uma flor de Eremurus ou de alho-ornamental e o prado natural ganhará um aspeto mais contemporâneo. Ou então reduzirás o número de espécies para 3-4, contrapondo duas cores e três formas distintas e construirás um jardim moderno; essa grelha pode ser modificada infinitamente conforme a inspiração.
Utilizar plantas oriundas dos mesmos ambientes permite, acima de tudo, um bom enraizamento e uma excelente instalação. É óbvio dizer, mas uma vivaz de solo drenante cultivada num solo pesado vai definhar, não estará no seu melhor e acabará, mais cedo ou mais tarde, por morrer.
Então, em que momento intervém o acaso controlado? Mantemos o nosso exemplo de jardim drenante e soalheiro e propomos criar aí um jardim branco. Começa por listar as plantas adequadas: gauras, ervas-dos-penas, alfazemas brancas, estipas, campânulas, erigerons, eupatórios, hortênsias arborescens, valerianas... Essas plantas crescem nas mesmas condições e cumprem o meu caderno de encargos do ponto de vista das cores, MAS para obter esse tal acaso controlado devo ter em conta um parâmetro aparentemente banal, o modo de propagação. Quais são as plantas de alma vagabunda que se autossemeiam por todo o lado e quais são as que não mexem a touceira 1 cm em 10 anos?
Se quero dominar o meu jardim, privilegio as plantas sédentárias; sim, mas assim o meu maciço terá a mesma aparência de ano para ano. Se quero movimento, devo introduzir uma dose de acaso e, portanto, uma dose de plantas vagabundas. É aqui que começa o acaso controlado: para poderes controlar, a proporção de plantas vagabundas tem de ser inferior à proporção de sédentárias; o equilíbrio certo (pelo menos no meu solo rico e fresco) é de 4/5 de sédentárias e 1/5 de vagabundas.
Se fores observador, sabes que a hortênsia arborescens, as ervas-dos-penas, as alfazemas brancas e, em menor medida, as campânulas são bastante comportadas; vou, por isso, privilegiar a plantação dessas variedades e esperar pelo menos 1 ano para que se instalem e ganhem vigor. Nas minhas plantações vou deixar algumas grandes bolsas vazias, de forma a poder, daqui a 1 a 2 anos, aí inserir as vagabundas. Esse longo período permitirá às plantas instaladas reforçarem-se; conseguirão enfrentar as intrusas e serão suficientemente robustas para limitar as plantas mais viajantes. Assim, de um ano para o outro, a tua paisagem mudará por pequenas pinceladas e evoluirá cada ano, sem se transformar por completo — isto é o conceito de acaso controlado.
Há vezes no jardim em que se conseguem belos sucessos e outras em que acontecem grandes falhas; por vezes as falhas são fruto de intensas reflexões: uma cena entre duas plantas que se revela decepcionante e, em sentido inverso, magníficos acertos devidos em grande parte ao acaso: duas cores aparentemente opostas que se associam na […]