Esperando que tenha seguido os conselhos do Michael para falhar na plantação das suas perenes, vejamos agora como falhar na combinação de cores de modo a arruinar os poucos vegetais que por acaso sobreviveram no seu jardim!
Lição n.º 1: não ter em conta o fundo para verificar a teoria do camaleão.
É óbvio que é preferível plantar uma clematite branca sobre um fundo branco. Segundo o conceito muito zen e abstrato "less is more", isso permite distinguir, entre outras coisas, a espessura do ar entre a flor e o seu suporte, sobretudo se tiver a boa ideia de suprimir sistematicamente as folhas que aparecem. Esta ideia surgiu-me durante a visita a uma exposição conceptual que descrevia a ascensão ao Mont Blanc por ursos polares.
É evidente que obterá o mesmo resultado com flores vermelhas numa parede de tijolo ou uma faixa de Ophiopogon planiscapus 'Nigrescens' ao longo de um rebordo de calçada negra.

Nestes três casos, a teoria do camaleão funciona na perfeição... Pode, se assim o entender, repintar regularmente a sua parede para a verificar com inúmeras plantas!
Esquecemos com demasiada frequência de integrar a arquitetura e os elementos decorativos nas plantações coloridas. Mas se realmente não percebe nada de arte contemporânea, reflita sobre o seguinte.
Gosta de gramíneas? Porque não integrá-las com mobiliário em rattan cuja cor se harmonize com a das hastes e das flores?
Também não se plantam os mesmos vegetais consoante o caminho seja revestido de tijolos, de lajes de xisto negro ou de cascalho amarelo.
Se a parede do vizinho é azul, porque não jogar ao Van Gogh utilizando flores de cor amarelo-esverdeado como as eufórbias, uma cortina de funcho (Foeniculum vulgare) atrás de mil-folhas-amarela (Achillea filipendulina)?

"A Noite Estrelada" Vincent van Gogh – Euphorbia, Foeniculum vulgare, Achillea filipendulina
Ao integrar a arquitetura envolvente, tornamo-la uma aliada, o que faz o jardim parecer maior do que realmente é e mais harmonioso. As duas coisas andam de mãos dadas, e separar a habitação do exterior é, espero, um conceito ocidental que pertence ao passado.
Lição n.º 2: evitar o amarelo, o laranja e o vermelho
É do conhecimento geral que as cores fortes só podem interessar a pessoas de mau gosto, mesmo que seja preciso reconhecer que as que se vestem de Desigual nunca mancham o vestido com molho.
Nada como os catálogos de papel de parede Laura Ashley para encontrar a inspiração que transformará o seu jardim numa caixa de bombons com que só a Disneyland Paris pode competir. 'Livre, livre!' dessas dálias garridas, o jardim reencontra finalmente a sua tranquilidade tão desejada e merecida.
Vamos lá, não se vai deixar enganar por essas ideias antiquadas?
Claro que as cores sóbrias têm o seu interesse. Mas não há nada melhor do que as cores fortes, sabiamente doseadas para despertar os seus canteiros adormecidos.
Saia do seu casulo rosa-claro e azul-bebé e parta à aventura. Claro que as composições habituais são tranquilizadoras, mas infelizmente muitas vezes pouco entusiasmantes.
Isso não significa que deva banir as suas cores preferidas. Trata-se simplesmente de as aquecer um pouco. Um agapanto lilás pode ser sublime, mas se plantar uma trintena deles lado a lado, o quadro frisa o ambiente funerário. Acrescente simplesmente cinco ou seis flores amarelo-enxofre e tudo ganha vida.

Faça este teste simples: com a mão, tape as hastes amarelas do verbasco. Não fica logo mais monótono? Foto: John Swithinbank – MAP
Não, o vermelho, o amarelo e o laranja não são de mau gosto. Basta saber dosear a sua intensidade e a sua quantidade. O outono não deixa mentir.
Lição n.º 3: as cores permitem ter um jardim sem manutenção.
O olhar é inevitavelmente atraído pelas cores vivas.
Um vermelho avança, enquanto um azul recua.
Se plantar muitas flores vermelhas no seu jardim pequeno, terá a impressão de que é minúsculo e parece-me que, dessa forma, o trabalho de manutenção fica reduzido à mínima expressão. Obrigado ao vermelho que encolhe.
Se, no entanto, for daqueles que pensam que algum esforço no jardim constitui a bolha de oxigénio diária que permite recarregar energias, aplique este princípio: ganhará profundidade se colocar flores azuis ou lilás no fundo do jardim pequeno, pois estas cores abrem o espaço. Da janela do seu alpendre terá a impressão de estar em Versalhes (não sonhe, falo apenas da perspetiva).
Pelo contrário, para minimizar a manutenção de um jardim grande, pode experimentar as massas florais intermináveis de flores pálidas. O olhar desliza sobre essas grandes superfícies uniformes como se não houvesse nada de interessante para ver, um espaço vazio de sentido. E é sabido que o vazio não requer qualquer manutenção.
Os amantes do jardim preferirão antes esta alternativa: plante, a distâncias regulares, pequenos grupos de cores fortes que funcionarão como pontos de exclamação que acompanham o visitante na sua deambulação. Um livro precisa de pontuação para existir. O mesmo se passa no jardim.
Lição n.º 4: um excesso de cores puras permite manter as sogras à distância
Usar as cores primárias acima de tudo. Isso poupar-lhe-á um voo para o Rio em fevereiro. E ao mesmo tempo concorrerá com os Chineses, de quem se diz que a Grande Muralha é a única obra humana visível da lua.
Mais a sério, não se deixe enganar pelo termo 'primária' ou 'pura' quando se fala de uma cor. Por definição, não podem ser obtidas por mistura e não partilham, portanto, nada com as suas vizinhas.
Deixe as 'puras' para os pintores e misture antes entre si cores terciárias constituídas por várias tonalidades. Mais uma vez, as cores do outono constituem o melhor exemplo.

Justapõem-se então sem conflito o vermelho, o amarelo e o laranja, pois cada um deles integra em dose variável um pouco dos outros dois. Um vermelho tomate, por exemplo, é ligeiramente alaranjado e suportará por isso muito melhor, ao seu lado, uma flor laranja. Substitua-o por um vermelho garança (azulado) e as coisas complicam-se.
Lição n.º 5: se tem medo de errar nas cores, não as use.
Nesse caso, siga o adágio: as cores claras em pleno sol e as cores escuras à sombra.
Tudo desaparece e entra na quarta dimensão. Ausência de forma, ausência de ruído, o vazio interestelar que talvez abra a porta para mundos insuspeitados.

Vamos, desça um pouco à Terra e deixemos ao Sr. Spock a exploração das galáxias desconhecidas.
Não se jardina da mesma maneira à sombra ou ao sol, em Lisboa ou em Singapura. Talvez goste de cores pastel onde se misturam em dose variável o branco, o lilás e o rosa. Tudo isso funciona maravilhosamente bem em latitudes onde o tempo cinzento é habitual ou em canteiros protegidos pela sombra de uma parede.
Nesses casos, estas nuances subtis ganham vida porque o menor detalhe, a menor variação de intensidade se deteta facilmente.
Transponha o conjunto para o sol e tudo se desmorona. A luz intensa achata ou queima estas bonitas tonalidades numa lavagem insípida que o olhar já não distingue.

o mesmo canteiro, com uma luminosidade diferente
Será mesmo preciso explicar por que razão a nobreza de uma flor púrpura escura se apaga completamente à sombra? Já percebeu: o olhar gosta de ser estimulado, caso contrário aborrece-se.
Na mesma ordem de ideias, quando realiza um canteiro monocromático, o grande erro seria nele colocar valores idênticos. É preciso variar a saturação: utilizar nuances claras e escuras de uma mesma cor reunidas em manchas, o que cria zonas de sombra e de luz como se uma nuvem cobrisse parcialmente o sol.
Lição n.º 6: para dominar a cor no jardim, é imprescindível integrar todas as regras do círculo cromático,
... e ter assistido a um ciclo de 20 conferências sobre os pintores impressionistas e assimilado na perfeição a lei do contraste simultâneo das cores enunciada pelo químico Chevreul. Só então começará eventualmente a conseguir trabalhar a cor no jardim.

Michel Eugène Chevreul e o seu círculo cromático
Vamos, deixe-se ir um pouco. As regras existem para não serem cumpridas, sobretudo se não foram enunciadas por si.
O jardim é uma questão de gosto pessoal e, enquanto se sentir bem nele… não mude nada.
Contudo, se ao dobrar um caminho se deparar com um lugar onde a mistura de cores o atrai e o faz dizer "bem gostava de fazer isto ou aquilo em casa, mas não sei por onde começar", então está pronto para explorar um mundo fascinante que não pede mais do que uma pitada de conhecimento prévio, um pouco de feeling e apenas o suficiente de fantasia.

Foto: GAP – Robert Mabic
O resto é apenas uma história de tentativas, sucessos e derrapagens (in)controladas. Mas não é essa a própria definição do jardim?
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