A Araucaria: descubra esta conífera com sementes comestíveis

A Araucaria: descubra esta conífera com sementes comestíveis

A araucária-do-Chile: uma árvore com múltiplas utilizações

Resumo

Modificado em 12 de janeiro de 2026  por Olivier 5 min.

Mergulhe no coração de uma viagem fascinante que conduz da botânica profunda à riqueza culinária, através da descoberta das sementes ou pinhões da araucária-do-Chile. A Araucaria araucana ou araucária-do-Chile, esta árvore majestosa que ornamenta as paisagens do hemisfério sul, guarda nas suas pinhas sementes com múltiplas virtudes, uma herança ancestral que atravessa épocas e culturas. Convida-se a explorar o universo destas sementes únicas, desde a sua origem botânica, marcada por uma história evolutiva fascinante, até ao seu lugar privilegiado nas tradições culinárias de diversas comunidades em todo o mundo.

Fique a conhecer tudo sobre os pinhões da araucária-do-Chile: desde a sua identificação até aos métodos de colheita, passando pelas técnicas de conservação que preservam a sua integridade e os seus benefícios nutricionais. Abrem-se as portas de uma cozinha criativa, onde estas sementes se transformam em ingredientes essenciais de receitas saborosas, desde saladas refrescantes a sobremesas delicadas. Este percurso da botânica à cozinha revela não só a importância ecológica e económica da araucária-do-Chile, mas celebra também a ligação profunda entre o ser humano e a natureza, através da utilização sustentável e respeitosa das suas dádivas.

Dificuldade

A araucária: esta árvore fascinante

A araucária é um género de árvores coníferas pertencente à família das Araucariaceae. Estas árvores distinguem-se pelo seu aspeto imponente e pela sua folhagem persistente. O tamanho das araucárias varia consideravelmente consoante as espécies, podendo alguns exemplares atingir até 60 metros de altura. A sua forma também é característica, sendo frequentemente piramidal ou colunar, com um tronco direito e robusto. A folhagem destas árvores é densa e composta por agulhas espessas, pontiagudas e, por vezes, dispostas em escamas, consoante a espécie.

A origem das araucárias remonta à era mesozoica, período durante o qual se encontravam disseminadas por todo o globo. Atualmente, encontram-se espontaneamente na América do Sul, sobretudo no Chile e na Argentina, onde a Araucaria araucana, a araucária-do-Chile ou araucária-do-Chile, é, aliás, um símbolo nacional. Outras espécies também se encontram na Austrália, na Nova Caledónia e na Nova Guiné.

Entre as espécies de araucária, algumas são comestíveis e têm importância económica e cultural para as populações locais. A Araucaria araucana, também conhecida pelo nome de pinheiro-do-Chile, produz sementes chamadas pinhões, que não só são comestíveis, como também são nutritivas. Estas sementes são tradicionalmente consumidas pelos povos indígenas do Chile e da Argentina, e a sua colheita é transmitida de geração em geração. Podem ser comidas cruas, cozinhadas ou utilizadas em diversas preparações culinárias.

espécies de araucárias e frutos

À esquerda e em cima, à direita, a Araucaria araucana e as suas grandes pinhas. Em baixo, à direita, a folhagem e os frutos da Araucaria heterophylla.

Todas as sementes de Araucaria são comestíveis?

Não, depende das espécies: cuidado com as confusões!

Apenas algumas espécies de Araucaria produzem sementes suficientemente grandes e sem toxinas para serem consumidas pelos seres humanos. Entre as mais conhecidas encontram-se:

  • Araucaria araucana (araucária-do-Chile): É a espécie mais conhecida pelos seus pinhões comestíveis, comercializados e apreciados pelo sabor rico e ligeiramente resinoso.
  • Araucaria bidwillii (pinheiro-bunia): Originária da Austrália, esta árvore produz pinhões comestíveis de grandes dimensões, mas o seu sabor é um pouco mais amargo do que o dos da araucária-do-Chile.
  • Araucaria cunninghamii (pinheiro-de-Hoop): As sementes desta árvore também são comestíveis, mas são mais pequenas e menos saborosas do que as das duas espécies anteriormente mencionadas.

Atenção: perigo! É importante salientar que as sementes de algumas Araucaria podem ser tóxicas e não devem ser consumidas. É o caso, nomeadamente, da Araucaria columnaris (araucária-colunar ou pinheiro-de-Cook) e da Araucaria heterophylla (pinheiro-de-Norfolk).

Em resumo, é essencial identificar corretamente a espécie de Araucaria antes de consumir as suas sementes. Se não houver certeza, é preferível não as comer. Aliás, convém tornar esta verificação sistemática!

pinhões comestíveis de que espécies de Araucaria

Araucaria bidwillii, à esquerda (© Wikimedia Commons, John Tann) e Araucaria cunninghamii no jardim botânico de Lisboa, à direita (© Wikimedia Commons, Salix): duas outras espécies, além da Araucaria araucana, cujas sementes podem ser consumidas

Os frutos da araucária

Os frutos da araucária são, na realidade, cones modificados que, consoante a espécie, podem ser masculinos ou femininos. São os cones femininos que, depois de maduros, libertam sementes comestíveis em algumas espécies (ver acima), os pinhões. Estes pinhões de araucária, semelhantes aos pinhões de pinheiro, são, contudo, um pouco maiores, podendo atingir 6 cm de comprimento.

A forma dos cones da araucária é geralmente esférica ou ovoide, com uma estrutura robusta. O tamanho varia significativamente consoante a espécie, desde alguns centímetros até mais de 30 cm. A cor dos cones maduros tende para o castanho, variando entre tons claros e escuros, mas alguns podem apresentar tonalidades mais esverdeadas enquanto ainda estão a desenvolver-se.

A composição nutricional das sementes de araucária é notável, o que as torna valiosas na alimentação humana e animal. Ricas em ácidos gordos, nomeadamente em ácidos gordos ómega-3 e ómega-6, estas sementes constituem uma excelente fonte de lípidos saudáveis. São também ricas em proteínas e fibras, e contêm várias vitaminas, como a vitamina E, um poderoso antioxidante, bem como minerais essenciais, como o potássio, o magnésio e o zinco. Esta composição faz delas um alimento energético e nutritivo.

O sabor das sementes de araucária é frequentemente descrito como delicado e ligeiramente adocicado, lembrando o dos pinhões de pinheiro. A textura é tenra e ligeiramente crocante, o que torna estas sementes agradáveis de consumir, tanto cruas como cozinhadas. Podem ser incorporadas em vários pratos, como saladas e produtos de pastelaria, ou até ser consumidas sozinhas, como um lanche nutritivo.

reconhecer cones frutos Araucaria

Os cones femininos de Araucaria araucana em diferentes fases de maturação

Colheita de sementes

Geralmente, os cones da Araucaria araucana amadurecem e estão prontos para ser colhidos no final do verão ou no início do outono. Este período pode variar ligeiramente de um clima para outro, pelo que é essencial acompanhar o desenvolvimento dos cones para escolher o momento ideal da colheita, quando os cones começam a abrir-se naturalmente e a libertar as sementes.

Nas árvores de pequeno a médio porte, pode ser possível colher os cones à mão, utilizando escadas para alcançar os que se encontram mais acima (atenção às quedas!). No caso das árvores de grande porte, pode ser necessário utilizar ferramentas específicas, como varas de colheita. Para os cones situados a alturas consideráveis, um método tradicional consiste em fazê-los cair, sacudindo suavemente os ramos ou utilizando varas compridas (atenção: esta técnica deve ser utilizada com prudência para evitar danificar a árvore). É essencial respeitar a árvore e o seu ambiente, evitando causar danos desnecessários durante a colheita. Isso inclui não cortar ramos para alcançar os cones e limitar a utilização de ferramentas que possam ferir a casca ou os ramos.

Para separar as sementes, abra cuidadosamente os cones com a ajuda de uma tesoura de poda ou de uma faca. Retire as sementes, tendo o cuidado de não as danificar. Em seguida, remova as asas e os detritos presentes nas sementes.

A pequena nota da Oli: só podemos recomendar a utilização de equipamento de proteção individual, como luvas grossas e um capacete, para proteção contra a queda dos cones e dos ramos pontiagudos. É também importante verificar a estabilidade da escada utilizada e nunca realizar a colheita sem companhia, para garantir assistência em caso de acidente.

como e quando colher sementes de araucária

Descasque dos pinhões

Descasque propriamente dito

  • Primeira etapa: Demolhe as sementes em água quente durante 24 a 48 horas. Isso amolecerá a casca e facilitará o descasque.
  • Segunda etapa: Utilize uma ferramenta pontiaguda e fina, como uma faca de cozinha ou uma pinça, para retirar cuidadosamente a casca das sementes. Comece por uma pequena extremidade e avance lentamente para não danificar a amêndoa.
  • Terceira etapa: Enxague as sementes descascadas em água limpa para eliminar os resíduos da casca.
preparação do descasque de sementes de Araucaria

O pinhão deve ser extraído do interior da semente

Algumas dicas

  • Para facilitar o descasque, pode utilizar uma tesoura de unhas ou uma pequena faca de lâmina fina.
  • Se a casca for particularmente dura, pode parti-la ligeiramente com um martelo antes de a retirar.
  • Tenha paciência e seja meticuloso para não danificar as amêndoas.

Conservação dos pinhões

A conservação dos pinhões de araucária é essencial para manter a sua qualidade nutricional e gustativa a longo prazo. Podem ser utilizados diferentes métodos para prolongar o seu período de conservação. As técnicas de conservação mais comuns para as sementes de araucária incluem a secagem e a congelação.

A secagem é um processo tradicional que consiste em reduzir o teor de água das sementes, limitando o desenvolvimento de micro-organismos e prolongando a sua conservação. As sementes podem ser secas naturalmente ao sol ou com a ajuda de um desidratador a baixa temperatura. É fundamental garantir que as sementes ficam completamente secas antes de as guardar em recipientes herméticos, ao abrigo da luz e da humidade, para evitar o aparecimento de bolor.

A congelação é outro método eficaz para conservar as sementes de araucária durante um período prolongado. Esta técnica preserva a textura, o sabor e as qualidades nutricionais das sementes. Antes de as congelar, recomenda-se escaldar ligeiramente as sementes em água a ferver, para inativar as enzimas que poderiam alterar a sua qualidade. Depois de arrefecerem, as sementes podem separar-se em porções e ser embaladas em sacos próprios para congelação, expulsando o máximo de ar possível para evitar a formação de cristais de gelo.

O período de conservação das sementes de araucária varia consoante o método escolhido. Quando são corretamente secas e armazenadas em condições ideais, as sementes podem conservar-se durante vários meses ou até um ano. Em contrapartida, quando são congeladas, o seu período de conservação pode prolongar-se até dois anos sem perda significativa de qualidade, desde que sejam armazenadas a uma temperatura estável e corretamente embaladas.

preparação e descasque de sementes de Araucaria

É importante salientar que, qualquer que seja o método de conservação escolhido, as sementes devem ser inspecionadas periodicamente para detetar qualquer sinal de deterioração, como alterações do odor ou da textura, ou o aparecimento de bolor. Constitui também uma boa prática etiquetar os recipientes com a data de conservação, para gerir melhor as reservas e garantir a utilização das sementes enquanto se encontram no seu melhor estado.

Utilização dos frutos

Como já se percebeu, as sementes ou pinhões da araucária oferecem uma riqueza culinária e benefícios que vão além do simples consumo alimentar. A sua utilização estende-se da cozinha criativa às práticas da medicina tradicional, demonstrando a versatilidade destes antigos «frutos».

Utilização culinária

Os pinhões de araucária podem enriquecer uma grande variedade de pratos graças à sua textura única e ao seu sabor delicado. Utilizam-se em receitas variadas, desde saladas a molhos, passando pelas sobremesas.

  • Receitas: Nas saladas, os pinhões conferem um toque crocante e suave, combinando bem com folhas verdes, queijos suaves e vinagretes leves. Incorporados nos molhos, podem ser triturados para engrossar e enriquecer pestos ou cremes. Nas sobremesas, os pinhões torrados acrescentam uma dimensão saborosa a bolos, tartes ou gelados.
  • Preparação dos pinhões:  A torrefação é um método popular para intensificar o seu sabor. Para isso, colocam-se numa frigideira sem gordura, em lume médio, até libertarem um aroma intenso e adquirirem uma cor dourada, mexendo-os frequentemente para evitar que se queimem.

Outras utilizações

Para além da cozinha, os frutos da araucária têm aplicações na produção de óleo e na medicina tradicional.

  • Óleo de araucária: A extração de óleo a partir das sementes de araucária permite obter um produto com múltiplas utilizações, desde a cosmética à alimentação. Este óleo é apreciado pelas suas propriedades hidratantes e pode ser integrado na formulação de cremes para a pele ou de produtos capilares. Na cozinha, o seu sabor distinto e os seus benefícios para a saúde fazem dele um óleo de eleição para temperos e pratos frios.
  • Medicina tradicional: Na cultura chilena, os pinhões de araucária e outras partes da árvore têm sido utilizados pelas suas propriedades medicinais. Utilizaram-se no tratamento de diversos problemas, como perturbações digestivas, ou para reforçar o sistema imunitário, graças à sua riqueza em vitaminas e minerais.

A araucária na cultura humana

Importância simbólica da árvore

A araucária-do-Chile está profundamente ligada às tradições e crenças de muitas culturas, sobretudo às dos povos indígenas das regiões onde é endémica. Por exemplo, para os Mapuches do Chile e da Argentina, a Araucaria araucana (conhecida localmente pelo nome de «Pehuén») é considerada uma árvore sagrada, um símbolo de vida e fertilidade. Esta espécie desempenha um papel central na sua cosmogonia e subsistência, sendo as sementes comestíveis do pehuén uma importante fonte de alimento.

Papel na economia local

Para além do seu valor simbólico, a araucária-do-Chile também tem um impacto económico significativo nas regiões onde cresce. As sementes comestíveis, nomeadamente as da Araucaria araucana, contribuem para a economia local, servindo de alimento básico e sendo comercializadas. Além disso, em algumas regiões, o artesanato relacionado com a araucária-do-Chile, como a escultura em madeira ou o fabrico de objetos decorativos a partir dos seus ramos e pinhas, gera rendimentos adicionais para as comunidades locais. Por fim, o turismo centrado na descoberta das florestas de araucárias-do-Chile representa outra fonte de rendimento, atraindo visitantes desejosos de admirar estas árvores imponentes e de conhecer melhor a sua importância ecológica e cultural.

Ameaças e conservação da espécie

Apesar da sua importância, as araucárias-do-Chile enfrentam, infelizmente, várias ameaças, sobretudo devido à atividade humana e às alterações climáticas. A desflorestação para fins agrícolas, a exploração florestal e a urbanização provocam uma redução do seu habitat natural, pondo em risco a sua sobrevivência. Além disso, as alterações climáticas afetam as condições ambientais necessárias ao seu crescimento, como os regimes de precipitação e as temperaturas.

Perante estes desafios, estão a ser desenvolvidos esforços de conservação para proteger a araucária-do-Chile. Entre as medidas adotadas contam-se a criação de reservas naturais, a aplicação de leis que proíbem o seu corte ilegal e programas de reflorestação destinados a recuperar as populações de araucárias-do-Chile no seu habitat natural. A sensibilização e a educação sobre a importância destas árvores são igualmente cruciais para incentivar a preservação e o respeito pela araucária-do-Chile e pelo seu ecossistema.

Preservação do habitat das araucárias-do-Chile nas florestas

Araucaria araucana no parque nacional de Villarrica, no Chile

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