A mirmecocoria: quando as formigas se tornam floreiras...

Descubra uma forma fascinante de dispersão das sementes de certas plantas pelas formigas

Resumo

Modificado em 2 de fevereiro de 2026  por Pascale 4 min.

Na natureza, cada ser desempenha um papel: a abelha recolhe néctar e transporta o pólen de uma flor para outra, as aves alimentam-se de sementes e dispersam-nas mais longe através dos seus excrementos, o vento dispersa os grãos leves de pólen ou os aquénios da erva-das-bruxinhas. À superfície e sob o solo das nossas florestas e jardins, outros seres desempenham um papel igualmente importante. Trata-se das discretas, silenciosas e trabalhadoras formigas, que também dispersam determinadas sementes. Em troca de uma recompensa, como é evidente! Com efeito, entre as formigas e determinadas plantas estabelece-se uma aliança vital para ambas as partes: a mirmecocoria.

Descubra os vários aspetos desta colaboração vantajosa para ambas as partes, denominada mirmecocoria, em que a planta «utiliza» a formiga para garantir a sua continuidade.

Dificuldade

O que é exatamente a mirmecocoria?

Derivado do grego myrmex (formiga) e khorein (deslocar-se), o termo «mirmecocoria» designa a dispersão das sementes pelas formigas. Longe de ser um simples acaso, trata-se de uma verdadeira colaboração biológica! É mesmo um dos modos de dispersão das sementes mais sofisticados que existem.

Ao contrário da dispersão das sementes pelas aves, que depende da ingestão aleatória de frutos carnudos, a mirmecocoria é uma forma de mutualismo, de colaboração. Uma troca de serviços e de benefícios em que cada parceiro tira proveito. Uma relação em que todos ganham e que beneficia ambas as partes.

Mirmecocoria: o papel das formigas

Muitas vezes discreta, a formiga desempenha um papel essencial na dispersão de determinadas sementes.

Este mecanismo baseia-se numa subtil manipulação química da planta em benefício da formiga, que desloca a semente horizontal e verticalmente. É esta dupla ação que faz da formiga um agente de dispersão muito eficaz.

O elaiossoma, a recompensa suprema

A formiga desloca, assim, uma semente horizontalmente pelo solo, antes de a enterrar. Mas, poderá perguntar-se, por que razão se daria uma formiga ao trabalho de transportar uma semente, por vezes duas ou três vezes mais pesada do que ela? A resposta resume-se numa palavra: o elaiossoma.

O elaiossoma, um alimento de eleição

O elaiossoma é uma pequena excrescência carnuda e oleosa, frequentemente esbranquiçada ou transparente, presa à semente. Rico em lípidos, proteínas e vitaminas, não desempenha qualquer papel na germinação da planta. A sua única função é servir de alimento de eleição para as formigas. Mas a planta não se limita a oferecer uma recompensa alimentar às formigas; “assinala-lhes” a presença da semente, através da composição do elaiossoma, que imita os ácidos oleicos encontrados nos insetos mortos. Para a formiga, esta semente torna-se um alimento de eleição, para si própria ou para as larvas. Um verdadeiro concentrado de energia, totalmente irresistível.

mirmecocoria das sementes

O elaiossoma de uma semente

O processo de transporte

Quando uma formiga operária encontra uma semente provida de um elaiossoma, agarra-a com as mandíbulas e leva-a apressadamente para o formigueiro, percorrendo centenas de centímetros ou até dezenas de metros. Não sem obstáculos! Uma vez no interior, o elaiossoma é consumido pelas larvas ou pelas formigas operárias. A própria semente, protegida por um tegumento duro e liso e que não interessa às formigas, permanece intacta. Depois de se tornar incómoda, é transportada para as “lixeiras” da colónia ou abandonada numa galeria subterrânea.

E é aí que a magia acontece: a semente acaba por ser semeada num ambiente ideal, ao abrigo dos predadores e rodeada de nutrientes. Perfeito para germinar!

Que plantas utilizam este modo de dispersão das suas sementes?

Cerca de 11 000 espécies de plantas em todo o mundo praticam a mirmecocoria. Nos jardins temperados e nas florestas europeias, este modo de dispersão é particularmente frequente entre as plantas primaveris. Estas plantas são designadas por mirmecocóricas, são frequentemente de pequeno porte e apresentam uma floração primaveril relativamente precoce, produzindo sementes que caem junto da planta-mãe:

  • A violeta e o amor-perfeito-bravo (Viola sp.) : É o exemplo mais conhecido. As violetas produzem sementes providas de um elaiossoma branco e brilhante que atrai imediatamente as formigas.
  • A primavera (Primula vulgaris) : é também um exemplo típico de planta mirmecocórica que floresce no início da primavera, precisamente quando as formigas começam a tornar-se ativas. É por isso que, nos jardins e nos bosques, se observam frequentemente novas primaveras, afastadas umas das outras alguns metros, muitas vezes junto aos muros ou na relva.
  • A campainha-de-inverno (Galanthus nivalis) : As suas sementes caem no solo logo no final da floração, prontas para serem transportadas pelas primeiras operárias da estação.
  • A erva-das-verrugas (Chelidonium majus) : Muitas vezes considerada uma “erva daninha”, deve a sua presença nas fissuras dos muros e em recantos improváveis ao trabalho incansável das formigas.
  • O ciclâmen : Após a floração, o caule do ciclâmen enrola-se como uma mola para depositar as sementes o mais perto possível do solo, facilitando o trabalho de recolha das formigas.
  • A anémona-dos-bosques (Anemone nemorosa) e a anémona-hepática (Hepatica nobilis) : Colonizam os bosques graças a esta parceria, formando vastos tapetes floridos na primavera.
  • A corydale (Corydalis) : estas flores primaveris produzem sementes pretas com um elaiossoma branco muito visível.
  • O lâmio (Lamium) : frequente nas orlas dos bosques e nas zonas sombrias, o lâmio é muitas vezes mirmecocórico.

    exemplo de plantas mirmecocóricas

    Plantas mirmecocóricas

As vantagens desta parceria entre plantas e formigas

À primeira vista, a mirmecocoria é um fenómeno bastante surpreendente, mas anedótico. Nada disso. Trata-se, na realidade, de uma verdadeira estratégia de sobrevivência que oferece vantagens consideráveis a ambas as partes.

As vantagens para a planta mirmecocórica

  • Uma proteção contra a predação: Uma semente que permaneça à superfície do solo corre o risco de ser comida por um roedor ou uma ave. Ao ser levada para debaixo da terra, escapa aos olhares e à cobiça destes animais granívoros, que simplesmente a teriam comido.
  • Uma proteção contra o fogo: Em ambientes sujeitos a incêndios, como o matagal mediterrânico ou o matagal australiano, as sementes enterradas pelas formigas sobrevivem à passagem das chamas. Protegidas do calor e das chamas, germinam assim que o fogo se extingue e devolvem vida às paisagens.
  • Um adubo à medida: As zonas de resíduos dos formigueiros são extremamente ricas em azoto e fósforo. A semente germina, por isso, num «substrato» de alta qualidade.
  • Uma forma de evitar a concorrência: Ao deslocar a semente para longe da planta-mãe, a formiga permite que a nova planta não entre em competição direta com a planta-mãe pela luz, pelos nutrientes e pela água.

As vantagens para as formigas

O elaiossoma constitui uma fonte de alimento estável e fácil de recolher. Em certos ambientes pobres, representa um recurso proteico essencial para o desenvolvimento das larvas da colónia.

E para o jardineiro?

Ao observar as formigas, estas operárias incansáveis, o jardineiro só pode aprender a ter paciência e humildade. E também a deixar acontecer. Com efeito, para ter um jardim bonito, é evidente que é necessário semear e plantar, cuidar e fazer a poda, fertilizar e regar… mas também é preciso deixar atuar aqueles que nele participam de forma indireta, mas eficaz. E haverá algo mais bonito do que um tapete de violetas à sombra de uma bela árvore?

Como pode o jardineiro favorecer esta colaboração?

Compreender a mirmecocoria pode mudar a forma como se olha para o jardim. Tanto mais que as formigas têm frequentemente má reputação no jardim. Pretende-se expulsá-las ou, pior ainda, erradicá-las. Mas considere uma formiga que transporta uma semente não como uma invasora, mas antes como uma auxiliar de cultivo. Já é um passo importante para as preservar.

Depois, é possível incentivar a sua presença num jardim natural. Bastam alguns gestos simples:

  • Limitar os inseticidas: o uso de produtos pesticidas, mesmo naturais, por não serem seletivos, perturba os trilhos de feromonas das formigas e dizima as colónias.

  • Preservar zonas de liteira: não se deve “limpar” freneticamente cada centímetro de terra. As folhas mortas e os restos vegetais são as vias rápidas das formigas, por onde circulam sem que se dê verdadeiramente conta.

  • Aceitar que se espalhem: se uma violeta cresce entre duas lajes ou junto à base de um muro, é provável que seja obra de uma formiga. Deixe essas plantas instalarem-se onde foram “semeadas”. Formarão, à semelhança das prímulas, magníficos tapetes floridos na primavera.

A mirmecocoria, um equilíbrio muito frágil

Infelizmente, esta parceria está ameaçada. A introdução de espécies de formigas invasoras, como a formiga-argentina, perturba este ciclo. Ao contrário das nossas espécies autóctones, estas formigas consomem frequentemente o elaiossoma no próprio local, sem transportarem a semente, ou devoram mesmo a semente, quebrando assim o contrato de mutualismo. Estas formigas já estão muito presentes ao longo do Mediterrâneo, nos departamentos do sul e na Córsega.

O aquecimento climático também desempenha um papel: se a floração das plantas e a atividade das formigas deixarem de estar sincronizadas, a dispersão das sementes deixa de poder ocorrer, pondo em risco a sobrevivência a longo prazo de algumas espécies vegetais.

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