Caracóis e lesmas no jardim: aliados ou pragas?
O seu papel essencial no jardim e no ecossistema
Resumo
Os caracóis e as lesmas são gastrópodes terrestres que se encontram em quase todos os jardins. Muitas vezes vistos como pragas, são temidos pelos jardineiros devido aos danos que provocam nos rebentos jovens, nas alfaces e num grande número de plantas do jardim ornamental e da horta. No entanto, o seu papel no ecossistema do jardim é muito mais complexo do que parece. Será necessário eliminá-los sem mais nem menos ou aprender a coexistir com eles?
Nesta ficha, explica-se por que razão estes animais não são apenas inimigos das culturas. Desempenham um papel essencial na fertilidade do solo e contribuem para o equilíbrio natural ao reciclarem a matéria orgânica. Contudo, uma população demasiado numerosa pode causar problemas. Descobrirá como gerir a sua presença no jardim através de soluções naturais e ecológicas que respeitam a biodiversidade.
→ Para saber mais sobre os diferentes métodos de controlo das lesmas, ouça também o nosso podcast:
Identificação de caracóis e lesmas
Diferenças entre caracóis e lesmas
Características físicas
Os caracóis e as lesmas pertencem à mesma classe zoológica, os gastrópodes, mas apresentam diferenças notáveis:
O caracol possui uma concha dura e espiralada, que lhe serve de proteção contra os predadores e as condições climáticas. Quando se sente ameaçado ou durante um período de seca, pode recolher-se para o interior da concha e bloquear a entrada com um opérculo.
A lesma, por sua vez, não possui uma concha externa visível (embora por vezes tenha uma concha interna rudimentar). É mais vulnerável às condições climáticas e esconde-se frequentemente em locais húmidos para evitar a desidratação.
Outras diferenças físicas:
- Tamanho: os caracóis são geralmente mais pequenos e compactos do que as lesmas, que podem ser compridas e alongadas.
- Deslocação: as lesmas deixam frequentemente um rasto de muco mais abundante do que os caracóis.
- Habitat: os caracóis toleram melhor os períodos de seca graças à sua concha, enquanto as lesmas procuram permanentemente ambientes húmidos.

Ciclo de vida e reprodução
Os caracóis e as lesmas têm um modo de reprodução fascinante. São hermafroditas, ou seja, possuem simultaneamente órgãos reprodutores masculinos e femininos. No entanto, geralmente precisam de acasalar com outro indivíduo da mesma espécie para fecundar os ovos. O acasalamento pode durar várias horas, após o que cada indivíduo põe os ovos num solo húmido, sob folhas ou em fendas. A postura varia consoante as espécies, mas um caracol pode pôr até 100 ovos de cada vez, e uma lesma entre 300 e 500 ovos ao longo da sua vida. A eclosão ocorre algumas semanas mais tarde: os gastrópodes jovens são autónomos desde o início e começam imediatamente a alimentar-se.
Os caracóis podem viver vários anos (até 5-7 anos no caso do pequeno-cinzento), enquanto as lesmas têm uma esperança de vida mais curta (1 a 2 anos).
Principais espécies presentes no jardim
O jardim abriga várias espécies de caracóis e lesmas, sendo algumas mais problemáticas do que outras para as culturas.
Os caracóis comuns no jardim
O Pequeno-cinzento (Cornu aspersum)
- Um dos caracóis mais comuns na Europa.
- Tamanho: cerca de 3 a 4 cm de diâmetro.
- Cor: concha acastanhada com padrões espiralados.
- Função: decompositor de matéria orgânica, mas também pode roer os rebentos jovens.
O Caracol-dos-jardins (Cepaea hortensis)
- Concha colorida, frequentemente amarela com bandas castanhas.
- Tamanho mais pequeno (1,5 a 2,5 cm).
- Prefere zonas húmidas e arborizadas.
- Menos voraz do que o pequeno-cinzento, tem um impacto limitado nas culturas.
O Caracol-da-Borgonha (Helix pomatia)
- O maior caracol terrestre em França (até 5 cm de diâmetro).
- Concha bege-clara e robusta.
- Está protegido em algumas regiões, por estar ameaçado pela apanha excessiva.
- Alimenta-se principalmente de vegetais em decomposição e desempenha um papel na compostagem.

À esquerda, o caracol-da-Borgonha. Em cima à direita: o caracol pequeno-cinzento e em baixo à direita: o caracol-dos-jardins
As principais lesmas do jardim
A Lesma-vermelha (Arion rufus)
- Lesma de grandes dimensões (até 15 cm), com o corpo vermelho-acastanhado.
- Alimenta-se de folhas, plantas jovens e frutos caídos.
- Pode provocar danos significativos na horta.
A Lesma-cinzenta (Deroceras reticulatum)
- Mais pequena (3 a 6 cm), de cor cinzento-acastanhada e com o corpo mosqueado.
- Muito ativa durante a noite e com tempo húmido.
- Ataca especialmente os legumes de folha (alfaces, couves).
A Lesma-preta (Arion ater)
- Pode medir até 10 cm, com o corpo preto ou castanho-escuro.
- Menos prejudicial, pois também se alimenta de matéria orgânica em decomposição.
A ter em conta: nem todas as lesmas são prejudiciais! Algumas espécies, como a lesma-leopardo (Limax maximus), alimentam-se essencialmente de fungos e resíduos orgânicos e podem até consumir outras lesmas. Para saber mais sobre o seu ciclo de vida, consulte o nosso artigo: “Lesmas no jardim: compreender o seu ciclo de vida para melhor as controlar“.

À esquerda, a lesma-cinzenta. Em cima à direita, a lesma-vermelha e em baixo à direita, a lesma-preta.
O papel ecológico das lesmas e dos caracóis
Frequentemente considerados pragas no jardim, os caracóis e as lesmas desempenham, ainda assim, funções essenciais no ecossistema. Participam na reciclagem da matéria orgânica, alimentam numerosos predadores e contribuem para um solo vivo e equilibrado.
Contributo para a decomposição da matéria orgânica
Os caracóis e as lesmas são decompositores naturais: consomem vegetais em decomposição, acelerando assim a sua transformação em húmus.
Um papel fundamental na reciclagem das folhas mortas e dos resíduos vegetais
- As lesmas e os caracóis alimentam-se de vegetais em decomposição, nomeadamente folhas mortas, caules secos e restos das culturas.
- Ao mordiscarem estes materiais, favorecem a fragmentação dos resíduos orgânicos, facilitando a sua decomposição pelos micro-organismos do solo (bactérias e fungos).
- Algumas espécies, como a lesma-leopardo (Limax maximus), alimentam-se principalmente de fungos e de matéria orgânica morta, desempenhando um papel fundamental no equilíbrio do solo.
Melhoria da fertilidade do solo
- Ao digerirem os vegetais mortos, os caracóis e as lesmas devolvem ao solo nutrientes essenciais, sob a forma de excrementos ricos em azoto e minerais.
- O seu muco e os seus excrementos participam na formação do húmus, favorecendo a retenção de água e a estruturação do solo.
- Ao escavarem ligeiramente a terra, aeram o solo, facilitando a circulação do ar e da água e melhorando assim as condições de crescimento das plantas.
Fonte de alimento para outras espécies
Os caracóis e as lesmas fazem parte integrante da cadeia alimentar e constituem uma fonte preciosa de alimento para muitos animais.
Muitos animais do jardim alimentam-se regularmente de caracóis e lesmas, desempenhando assim um papel de regulação natural:
- Os ouriços-cacheiros são excelentes caçadores de lesmas e caracóis, contribuindo para limitar a sua população na horta.
- Os sapos e as rãs apreciam particularmente as lesmas e contribuem assim para a proteção das culturas.
- Os carabídeos e os estafilinídeos, dois tipos de escaravelhos muito presentes nos jardins, alimentam-se dos ovos e das lesmas jovens, impedindo a sua proliferação excessiva.
- As aves insectívoras (melros, tordos e piscos-de-peito-ruivo) consomem regularmente caracóis e lesmas, bem como os seus ovos.
- Os répteis, como os licranços e algumas cobras, podem também alimentar-se de gastrópodes jovens.
Os caracóis e as lesmas constituem uma fonte essencial de proteínas e cálcio para estes animais. Ao regularem naturalmente a sua população, estes predadores contribuem para evitar invasões maciças de lesmas nas hortas.

Contributo para a manutenção da biodiversidade
Além do seu papel enquanto decompositores e presas de outras espécies, os caracóis e as lesmas favorecem um ecossistema rico e equilibrado.
Interação com outros insetos e micro-organismos
- Ao decomporem os vegetais mortos, favorecem o desenvolvimento de fungos e bactérias benéficos para o solo, que são depois consumidos por outros organismos.
- O muco das lesmas é utilizado por algumas bactérias e fungos como fonte de alimento.
- Os ovos das lesmas e dos caracóis são por vezes consumidos por insetos auxiliares, como os carabídeos, que regulam naturalmente a sua população.
Promoção de solos vivos
- Os caracóis e as lesmas ajudam a manter um equilíbrio ecológico, limitando a acumulação excessiva de matéria morta.
- A sua passagem pelo solo estimula a atividade biológica e favorece um ambiente propício às minhocas, aos fungos e a outros decompositores naturais.
- E um solo vivo, com uma fauna variada, é mais resiliente perante as doenças e as secas, pois conserva melhor a humidade e os nutrientes.
➡️ Em resumo: os caracóis e as lesmas são elementos essenciais do jardim natural, participando ativamente na biodiversidade do solo e no seu bom funcionamento.
Os caracóis e as lesmas no jardim: amigos ou inimigos?
Os caracóis e as lesmas são frequentemente vistos como inimigos do jardineiro devido aos danos que podem causar. Apreciam especialmente os rebentos jovens e tenros, as saladas e os morangos, deixando para trás folhas roídas e, por vezes, culturas dizimadas numa só noite. A sua proliferação é favorecida pelo tempo húmido, por solos ricos em matéria orgânica e por abrigos naturais (pilhas de madeira, pedras, coberturas mortas espessas).
No entanto, estes gastrópodes também têm efeitos positivos no jardim. Ao consumirem os vegetais em decomposição, participam na sua transformação em húmus e contribuem, assim, para o equilíbrio do solo. A sua presença é também um indicador de um solo saudável, rico em micro-organismos e bem hidratado. Em vez de procurar eliminá-los completamente, é preferível aprender a conviver inteligentemente com eles, protegendo as culturas mais sensíveis e favorecendo os seus predadores naturais.

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9 Hostas resistentes às lesmasComo gerir a presença de lesmas e caracóis no jardim?
Os caracóis e as lesmas fazem parte do ecossistema do jardim, mas o seu apetite voraz pode causar danos às plantas jovens e às culturas sensíveis. Em vez de procurar eliminá-los totalmente, o objetivo consiste em limitar o seu impacto, favorecendo um equilíbrio natural.
Prevenção e boas práticas
Incentivar a biodiversidade é uma solução eficaz para evitar uma proliferação excessiva. Ao atrair os seus predadores naturais, como ouriços-cacheiros, sapos, aves e insetos auxiliares, a sua população mantém-se sob controlo sem intervenção química. Para isso, é útil criar refúgios adequados: sebes diversificadas, montes de madeira e folhas mortas, bem como pequenos pontos de água, são estruturas que favorecem estes auxiliares do jardim.
Em paralelo, é possível desviar-lhes a atenção, criando zonas específicas onde encontrem alimento sem causar demasiados danos. Um monte de vegetação em decomposição ou a plantação de certas variedades de que gostam pode contribuir para afastá-los das culturas sensíveis. A escolha das plantas também é importante: os caracóis e as lesmas evitam geralmente as plantas com folhagem áspera ou aromática, como a alfazema, o tomilho ou a sálvia.
Soluções naturais para limitar os danos
Se a sua presença se tornar demasiado invasiva, alguns métodos permitem proteger as culturas de forma ecológica. Uma cobertura morta bem escolhida pode abrandar a sua progressão e limitar os seus ataques. Os materiais rugosos ou desidratantes, como as cascas de ovo trituradas, as agulhas de pinheiro ou a cobertura morta de linho, criam uma barreira física desagradável de atravessar. No entanto, as lesmas são animais persistentes.
Algumas plantas também possuem propriedades repelentes. As samambaias, as chagas ou as begónias parecem ser pouco apreciadas pelos gastrópodes e podem ser utilizadas em bordadura das hortas para limitar as intrusões. Barreiras naturais, como a cinza de madeira, as lascas de noz ou o fio de cobre em redor das plantas, também podem impedir a sua progressão.

Evitar soluções nocivas
A utilização de produtos químicos anti-lesmas é frequentemente tentadora, mas estes produtos são perigosos para a fauna do jardim. Afetam não só os caracóis e as lesmas, mas também os seus predadores naturais, perturbando assim o equilíbrio ecológico. Algumas alternativas, como os grânulos à base de fosfato de ferro (Ferramol), também devem ser utilizadas com moderação e grande prudência.
As armadilhas com cerveja, frequentemente recomendadas, atraem um grande número de lesmas e podem provocar uma concentração excessiva destes gastrópodes numa determinada zona. É preferível utilizá-las com parcimónia e como complemento de outros métodos. Investir num jardim diversificado e num solo vivo continua a ser a melhor abordagem para coexistir com estes habitantes do jardim sem que se tornem invasivos.
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