As ervas-das-bruxinhas... Detestamo-las, martyrizamo-las, fazemos-lhes a vida negra! Quantos jardineiros lhes querem cortar a raiz (literalmente...) porque não "ficam bem" no seu belo relvado?

E no entanto, se soubesse até que ponto esta flor é importante para a fauna dos nossos jardins! E não só... Digo-lhe já: esta simpática representante da família das Asteráceas, que atende pelo doce nome de Taraxacum officinale, não merece claramente que se insista tanto em combatê-la. Eis as razões... 

As ervas-das-bruxinhas são úteis aos insetos

As ervas-das-bruxinhas são plantas hospedeiras de certas mariposas, como a Esfinge da erva-das-bruxinhas, por exemplo, mas também de pequenos coleópteros: certos meligetes (um género muito vasto cuja identificação precisa é penosa...). Como acontece com outras plantas silvestres, a erradicação sistemática das ervas-das-bruxinhas no jardim reduzirá consideravelmente as populações dos insetos que delas dependem, nomeadamente estas mariposas.

Mas não é tudo! É também uma das flores mais nectaríferas e melíferas da nossa flora. E como floresce de maio a outubro, tem tempo de alimentar uma enorme variedade de insetos diferentes: borboletas diurnas, coleópteros, cigarrinhas, sirfídeos, abelhas e abelhões silvestres... 

Sabia que? Nem todas as Asteráceas de flores amarelas são ervas-das-bruxinhas. A identificação destas plantas pode revelar-se um verdadeiro quebra-cabeças. Na dúvida, deixe crescer tudo!

As ervas-das-bruxinhas alimentam as aves e outros pequenos animais também 

Esqueçamos por um momento os insetos e concentremo-nos nos outros habitantes do jardim!

Certas aves granívoras, como o pintassilgo, apreciam petiscar algumas sementes, as flores e até as folhas das ervas-das-bruxinhas. Os gansos e as galinhas também adoram as folhas desta planta. Não hesite, por isso, em dá-las a esses animais! 

Alguns micromamíferos como o musaranho ou o rato-dos-campos são muito apreciadores das flores das ervas-das-bruxinhas. 

Não nos podemos esquecer dos predadores insetívoros que gravitam em torno desta verdadeira despensa: aves, mamíferos, insetos predadores, aranhas e até... morcegos durante a noite. 

Tudo se come na erva-das-bruxinhas!

A erva-das-bruxinhas é uma hortaliça antiga que contém vitamina C, β-caroteno, ferro e potássio. Existem mesmo variedades de erva-das-bruxinhas "melhoradas" que podem ser cultivadas na horta.

As folhas consomem-se em salada, os botões florais podem ser consumidos como as alcaparras. E durante os tempos de guerra, chegou a criar-se um sucedâneo de café com raízes de erva-das-bruxinhas.

As flores também são comestíveis e degustam-se quando estão bem adocicadas... O único risco: ficar com o bigode cheio de pólen e ter de suportar o olhar estranho do vizinho! Por fim, colhem-se também as pétalas para fazer a famosa cramaillotte (compota de erva-das-bruxinhas) ou vinho de erva-das-bruxinhas... O mel de erva-das-bruxinhas é também uma iguaria!

Nota: tenha, no entanto, cuidado para não as colher nos prados de pastagem. As folhas consumidas cruas podem transmitir a fascíola hepática. Como a erva-das-bruxinhas concentra os poluentes, evite também colhê-la em terrenos poluídos. 

O Taraxacum officinale, a erva-das-bruxinhas, é uma planta medicinal como o seu nome indica. É diurética e depurativa e possui virtudes antioxidantes

Sabia que? Alguns apreciam tanto as ervas-das-bruxinhas (o género Taraxacum) que fazem coleção delas, como outros colecionariam cornisos, roseiras ou campainhas-brancas! Quanto a mim, quase cedi à tentação de comprar uma belíssima Taraxacum pseudoroseum de flores amarelo-rosadas, num especialista em plantas silvestres...

A erva-das-bruxinhas, uma planta bioindicadora

Sabia que uma proliferação de ervas-das-bruxinhas num determinado local indica uma grande riqueza do solo, nomeadamente em azoto? A presença maciça destas flores revela também uma terra demasiado compactada, chegando mesmo a estar asfixiada. Certo é que são os terrenos pobres que possuem a maior diversidade botânica e, por conseguinte, a maior diversidade faunística... mas isso não é razão para exterminar estas pobres ervas-das-bruxinhas!

Combater as ervas-das-bruxinhas: uma empresa vã...

Insistir em arrancar as ervas-das-bruxinhas é não só lutar contra moinhos de vento com uma simples lança, mas sobretudo desferir mais um ataque contra a biodiversidade e o equilíbrio da natureza. Para além de servirem de alimento a toda uma fauna, as ervas-das-bruxinhas são também capazes de fixar contaminantes do solo, como certos metais pesados (chumbo, cádmio...). Comestível e medicinal, a erva-das-bruxinhas é uma das primeiras flores a alimentar as abelhas domésticas e silvestres, cujas populações já sofrem bastante. Percebe-se, portanto, que todas estas qualidades bem valem deixar duas ou três "manchas" amarelas no relvado.