A cigarra, inseto do sul cujo canto típico se ouve nos jardins durante o verão

Tudo sobre este inseto do sul de França

Resumo

Modificado em 27 de janeiro de 2026  por Pascale 3 min.

Ah, o canto das cigarras! A Cigarra, tendo cantado/Todo o verão, /Viu-se muito desprovida/Quando chegou o vento frio :/Nem um só bocadinho/De mosca ou de verme… Esta fábula certamente embalou a infância de todos nós. Ainda assim, estas poucas linhas contêm erros, provavelmente devido ao desconhecimento que La Fontaine e, de forma mais geral, o grande público tinham da cigarra. Com efeito, a cigarra nunca se alimenta de insetos nem sobrevive durante o inverno. Quanto às relações com a formiga, não são mais idílicas do que na fábula! Seja como for, a cigarra é um inseto do sul de França, emblemático, que ilumina os nossos verões com o seu canto típico, reconhecível entre todos, um tanto ruidoso, repetitivo e até irritante para algumas pessoas. Mas o que se esconde realmente por detrás deste canto das cigarras? Qual é o modo de vida e o ciclo de vida da cigarra, este inseto do sul?

Descubra tudo o que precisa de saber para identificar e compreender a cigarra, de modo a protegê-la melhor.

Dificuldade

O que são as cigarras?

As cigarras são insetos da ordem dos hemípteros e da família Cicadidae. Em França, distinguem-se cerca de quinze espécies, distribuídas por três subfamílias: Cicadinae, Tibicinae e Cicadettinae. Se a maioria das cigarras se encontra no sul de França e na Córsega, algumas, mais raras, podem subir em direção ao norte do território. Contudo, mostram-se muito mais discretas. A título de exemplo, a cigarra-das-montanhas (Cicadetta montana) encontra-se em quase todo o território.

Embora pertençam a espécies diferentes, as cigarras apresentam uma morfologia semelhante. Com cerca de 3 cm de comprimento nas maiores, as cigarras possuem seis patas peludas, quatro asas dobradas em forma de telhado sobre o corpo, sendo as anteriores marcadas por uma dobra transversal e as posteriores nervuradas, olhos simples chamados ocelos e dois olhos compostos, sem esquecer o rostro, o seu aparelho bucal, que lhes permite alimentar-se. A maioria é acinzentada, acastanhada ou preta. Todas são verdadeiras mestras da camuflagem, para se confundirem com a paisagem.

cigarras na Provença

As três espécies de cigarras mais comuns: Lyristes prebejus, Cicada orni e Cicadatra atra (no sentido dos ponteiros do relógio)

Em França, as cigarras mais comuns (e mais ruidosas!) são três:

  • Lyristes prebejus (a cigarra plebeia): com 35 mm de comprimento, apresenta o corpo preto na parte superior e ocre-bege na parte inferior
  • Cicada orni (a cigarra cinzenta): com 28 mm de comprimento, em média, é acastanhada e verde, revestida de pruina acinzentada
  • Cicadatra atra (a cigarra preta): mais pequena, mede 19 mm. Reconhece-se pelo corpo preto na parte superior e acastanhado na parte inferior. Podem observar-se duas marcas pretas junto ao ápice das asas anteriores.

Qual é o ciclo de vida de uma cigarra?

As cigarras ouvem-se mais do que se veem! Com efeito, não só são extremamente discretas, graças ao mimetismo com as plantas onde se instalam e à sua capacidade de detetar a nossa presença à mínima aproximação, como também a sua permanência “à superfície” é bastante curta. Ao longo da sua existência, as cigarras adotam alternadamente um modo de vida subterrâneo e um modo de vida aéreo.

Quando se ouvem as cigarras a “cantar”, aproximadamente entre meados de junho e meados de agosto, a época de acasalamento está no auge. Depois de fecundadas, as fêmeas põem os ovos em pequenas cavidades escavadas nos caules, em pequenos ramos e na casca das árvores, com a ajuda de um ovipositor, que é simultaneamente um instrumento perfurante e um órgão de postura. Após a eclosão, as larvas no primeiro estádio deixam-se cair no solo para aí se enterrarem. Começa então a sua vida subterrânea, que pode durar vários anos. As larvas escavam galerias individuais e alimentam-se da seiva das raízes.

larva de cigarra

Larva de cigarra em muda imaginal

Após cinco mudas, a larva regressa à superfície para se transformar numa ninfa de cigarra, fora do solo, num ramo ou numa rocha. Esta muda imaginal (a última muda de um inseto antes de passar ao estado adulto), que pode durar várias horas no exterior, torna as larvas particularmente vulneráveis. E são numerosos os predadores, entre formigas, aves, gafanhotos, louva-a-deus, aranhas…

Quando a muda termina, o imago (cigarra adulta) dedica-se às suas atividades. É preciso dizer que o tempo é contado! Três semanas para se reproduzir e pôr ovos… antes de desaparecer.

O mistério do “canto” da cigarra

Comecemos por esclarecer as coisas! A cigarra não canta, produz sons com os tímbalos. Com efeito, as cigarras possuem um órgão exclusivamente destinado a esta função: o órgão timpânico, constituído por placas curvas de cutícula, relativamente rígidas, que se comprimem e descomprimem graças a um músculo interior. Estes movimentos, da ordem de 300 a 900 por segundo, estão na origem do canto da cigarra, que se assemelha mais a um estalido do que à estridulação dos gafanhotos. Este “canto” é, aliás, amplificado pelo abdómen da cigarra, que empurra as vísceras para os últimos segmentos do corpo, de modo a amplificá-lo.

Surge depois a questão da finalidade da produção destes sons. Convém saber que apenas os machos emitem estes sons… Trata-se simplesmente de um chamamento nupcial que as fêmeas conseguem ouvir. Atraída pelas suas vocalizações, a fêmea aproxima-se do macho que canta. Após a cópula, um macho pode fecundar várias outras fêmeas.

canto das cigarras

Uma cigarra a produzir sons

É importante, contudo, ter em conta que o macho só canta quando a temperatura é suficientemente elevada, geralmente em torno dos 25 °C. Consoante as condições meteorológicas, pode cantar durante todo o dia. A cigarra e o calor do verão são, portanto, indissociáveis.

Qual é o papel da cigarra no jardim?

Como todos os insetos, as cigarras desempenham um papel no ecossistema e no ambiente. Convém esclarecer que não são de modo algum prejudiciais. Com efeito, a cigarra é um inseto picador-sugador que se alimenta da seiva das plantas, mas, ao contrário das cochinilhas, dos pulgões, dos percevejos e de outros tripes, não é prejudicial para as plantas. As suas picadas são muito finas e, sobretudo, não provocam cancro. A cigarra não danifica as plantas.

Em contrapartida, as suas larvas podem ser benéficas. Ao escavarem durante vários anos o solo onde crescem, arejam-no, descompactam-no e fissuram e fragmentam as partículas de terra. São, portanto, bons auxiliares subterrâneos.

As cigarras também contribuem para o equilíbrio do jardim e da natureza. O seu canto atrai, com efeito, aves ou répteis, como os lagartos, que delas se alimentam, consumindo ao mesmo tempo outros insetos parasitas.

As cigarras: insetos em perigo?

Tal como muitos outros insetos, as cigarras estão a sofrer uma regressão alarmante. Os entomologistas parecem ter identificado várias causas. Desde logo, a redução das zonas de mato mediterrânico e de matagal mediterrânico, de colinas e encostas, em benefício das videiras e de outras culturas mediterrânicas. Por exemplo, a cigarra cotonosa (Tibicina tomentosa), muito comum na Provença há cerca de cem anos, praticamente desapareceu.

Os incêndios são também uma das causas do desaparecimento das cigarras. Tendo em conta o seu ciclo de vida, que se prolonga por pelo menos dois anos, um incêndio afeta não só os adultos, mas também as larvas, ao longo de vários anos.

O aquecimento global não deixa de ter consequências, pois destrói muitos ovos e larvas. Há ainda os adultos, que sofrem com o calor: os machos protegem-se cantando menos e a reprodução é adiada.

Por fim, os ovos depositados na casca das árvores também podem viajar bastante e acabar por chegar a regiões com um clima menos favorável, graças ao transporte de uma árvore como a oliveira, do sul para o norte, ou de caixas de fruta. Nos últimos dias, chegaram mesmo a ser detetados cantos de cigarras em Paris, nomeadamente no bairro de Neuilly, onde foram ouvidas. Se estas cigarras «viajantes» passarem o verão em Paris, não sobreviverão ao inverno. O mesmo acontecerá às larvas que irão nascer, que terão poucas hipóteses de sobreviver.

É por isso que, no jardim, é sempre possível contribuir um pouco para a biodiversidade e salvar as cigarras que vivem nas proximidades:

  • Mantenha um solo solto debaixo das árvores, para permitir que eventuais larvas se enterrem no solo
  • Deixe zonas selvagens debaixo das árvores
  • Não cave o solo demasiado profundamente debaixo das árvores, para não destruir as larvas
  • Não compacte o solo, para lhes permitir enterrarem-se
  • Plante espécies mediterrânicas favoráveis se estiver no sul: oliveiras, pinheiros e outras coníferas, medronheiros

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