Resumo

Modificado em 15 de setembro de 2025  por Ingrid 6 min.

Num mundo onde os ecossistemas estão cada vez mais empobrecidos, o jardim pode tornar-se um refúgio e um espaço de resistência. Cada recanto verde, mesmo um pequeno jardim, pode proporcionar uma pausa a uma fauna e uma flora cada vez mais fragilizadas. Criar um refúgio para a natureza no jardim é, simultaneamente, um ato de compromisso e uma fonte de encantamento. Insetos polinizadores, aves, ouriços-cacheiros, anfíbios e flora espontânea encontram aí alimento, abrigo e tranquilidade.

Descubra as nossas ideias, desde gestos simples até intervenções mais elaboradas, para incentivar a biodiversidade e enriquecer de forma duradoura a vida do seu jardim.

Dificuldade

Porquê ajudar e criar refúgios para a biodiversidade?

Durante muito tempo, o jardim foi pensado como um espaço para dominar e controlar. Relva cortada rente ao solo, caminhos de pedra, sebes podadas com cordel de jardim… tantas escolhas estéticas que foram apagando progressivamente os abrigos naturais necessários à pequena fauna. Hoje, perante o declínio dos insetos, das aves e das plantas silvestres, o olhar está a mudar. Cada vez mais jardineiros escolhem acolher a natureza em vez de a controlar, recriando equilíbrios favoráveis à vida.

Criar um jardim favorável à biodiversidade não significa deixar a natureza agir sem intervir. Pelo contrário, significa observar, compreender e agir para multiplicar os micro-habitats: lugares variados, propícios a diferentes espécies, que irão interagir entre si para constituir um ecossistema vivo e autónomo, proporcionando muitas vezes um jardim mais resiliente perante as doenças e as pragas.

um pisco-de-peito-ruivo, bicho-de-conta e borboleta

Oferecer refúgios naturais para a fauna

O primeiro passo consiste em criar abrigos naturais para atrair uma fauna variada. A ideia não é transformar todo o jardim de uma só vez, mas deixar espaço para zonas menos «controladas», que depressa se tornarão verdadeiros refúgios para a vida selvagem.

Eis alguns exemplos de estruturas simples de instalar:

  • Um monte de madeira ou de ramos: sob a forma de uma sebe seca ou de um monte maior nos jardins grandes, ou de um simples monte de madeira num canto sombrio de um jardim pequeno. Estes abrigos atrairão ouriços-cacheiros, carabídeos e outros insetos auxiliares, proporcionando-lhes proteção.
  • Um muro de pedra seca ou simplesmente um pequeno monte de pedras achatadas permite que lagartos, licranços ou aranhas se instalem ao abrigo dos predadores.
  • Um canto do jardim deixado ao abandono, sem cortar a relva, mantendo as ervas altas e as florações espontâneas, permitirá acolher borboletas, gafanhotos, sirfídeos e muitos outros insetos. Alguns jardineiros, como Pascal no vídeo, deixam até as silvas crescerem, formando uma barreira natural e protetora, mas também fornecedora de alimento, para numerosas espécies, nomeadamente aves e insetos.
  • Uma sebe campestre, composta por arbustos locais como o abrunheiro-bravo, o sabugueiro ou o pilriteiro, proporciona simultaneamente alimento (bagas, pólen) e abrigo para a nidificação de algumas aves.
  • Deixar no lugar cepos de árvores, montes de folhas secas ou um canto de composto ao ar livre são formas de criar micro-refúgios muito frequentados.

A ter em conta: Estes espaços podem por vezes parecer desordenados, mas estão cheios de vida e de interações, por vezes invisíveis a olho nu, que reforçam o equilíbrio geral do jardim.

Uma sebe seca, um cepo de árvore, um monte de pedras e um jardim parcialmente cortado

Uma sebe seca, um cepo de árvore, um monte de pedras e um corte da relva criterioso num jardim

Instalar abrigos para insetos e pequenos animais

Embora os abrigos naturais que acabámos de ver devam ser privilegiados, algumas estruturas específicas podem ajudar e reforçar o acolhimento da biodiversidade. Caixas-ninho, hotéis para insetos e abrigos para morcegos: desde que sejam bem concebidos, estes dispositivos complementam os refúgios vegetais:

  • Coloque caixas-ninho para aves ao abrigo do vento e do calor intenso, fora do alcance dos predadores. Existem diferentes tipos de caixas-ninho, consoante as espécies de aves da região. Pense também nos comedouros para ajudar as aves durante o inverno, sem esquecer os bebedouros, indispensáveis em qualquer estação!
  • Instale hotéis para insetos. Convém notar que é preferível instalar vários abrigos pequenos, adaptados a uma única espécie de cada vez, em vez de um grande hotel universal para insetos (embora este seja sempre muito melhor do que nada). Por exemplo, caules de bambu de sebe para as abelhas solitárias ou troncos perfurados para as osmias, entre outros.
  • Instale abrigos para morcegos num local elevado, numa parede virada a sul ou sudeste.
  • Num jardim grande, também se pode instalar uma colmeia vazia (como fez o Pascal no vídeo) para atrair um enxame de abelhas selvagens.
Uma caixa-ninho para aves, um hotel para insetos e um abrigo para morcegos

Uma caixa-ninho para aves, um hotel para insetos e um abrigo para morcegos

Oferecer alimento à fauna selvagem

Depois de proporcionar abrigo, é também necessário oferecer alimento à fauna do jardim. E isso começa pela plantação de plantas perenes e arbustos melíferos para atrair e alimentar os insetos. Dê preferência às espécies locais, rústicas e bem adaptadas ao solo e ao clima do jardim, pois são frequentemente as mais benéficas (abundância de pólen, floração no momento certo) para os insetos polinizadores da região.

Para criar um jardim vivo e útil:

  • Escolha diferentes variedades de plantas, de modo a escalonar as florações desde o início da primavera até ao final do outono, como, por exemplo, o amelenquer, o sabugueiro, o corniso, a aubrecia, a centáurea, o abrunheiro-bravo, entre outras.
  • Integre flores simples, mais acessíveis aos insetos do que as variedades de flores dobradas, frequentemente estéreis.
  • Deixe florescer as gramíneas e as flores locais (papoilas, erva-das-bruxinhas, etc.) que atrairão os polinizadores.
  • Semeie plantas melíferas e nectaríferas como a facélia, o trevo-encarnado, a borragem ou a centáurea. Também é possível semear ilhas (ou uma floreira) de sementes para prados floridos.
  • Dê também preferência às plantas que fornecem alimento e produzem bagas (sobretudo no inverno) para as aves e os pequenos mamíferos, como a tramazeira, a roseira brava ou o evónimo-europeu.

Um jardim diversificado atrai polinizadores, mas também predadores naturais de pulgões e lagartas, como sirfídeos, joaninhas, chapins ou morcegos.

Para saber mais, leia também os nossos artigos: “As melhores bagas para atrair e alimentar as aves no jardim”, “Plantar plantas para alimentar as aves do jardim”“Os arbustos melíferos: uma ajuda preciosa para a biodiversidade”.

Prados floridos e bagas de amelenquer

Flores de um prado florido e bagas de amelenquer

Instalar um ponto de água para a fauna

A água é outro elemento que permite atrair uma fauna específica (anfíbios, insetos, etc.), mas também é indispensável para muitas espécies terrestres se dessedentarem (aves, insetos, ouriços-cacheiros…). Um grande lago natural permite uma grande diversidade, mas não é necessário dispor de um lago de grandes dimensões: até um pequeno lago ou um bebedouro bem colocado pode tornar-se um ecossistema por direito próprio.
Algumas recomendações:

  • Dar preferência a um lago com margens de inclinação suave para facilitar o acesso aos animais pequenos.
  • Plantar diferentes espécies de plantas aquáticas consoante a profundidade. Numa zona muito pouco profunda, a hortelã-da-água ou o ranúnculo-de-água atraem os insetos polinizadores e proporcionam abrigo. Um pouco mais abaixo, as tábuas (a instalar com moderação) ou os íris amarelos acolhem anfíbios e libélulas. No centro do lago, na zona mais profunda, pode introduzir uma espécie local de Potamogeton ou algumas elódeas, que oxigenam a água e servem de refúgio às larvas e aos pequenos invertebrados.
  • Se faltar espaço, uma simples taça com água colocada no parapeito de uma janela pode já ajudar as abelhas ou as aves durante os períodos de seca.
um lago e uma ave a beber água numa taça

Um lago e uma ave a beber água numa taça

Adotar uma jardinagem respeitadora da biodiversidade

Acolher a biodiversidade passa também por práticas mais suaves e menos intrusivas. O solo é um meio vivo, rico em micro-organismos, minhocas, larvas, fungos… que importa preservar para favorecer as interações naturais.

Eis algumas práticas a adotar:

  • Abandonar o uso de pesticidas, herbicidas e adubos sintéticos.
  • Praticar a cobertura morta, para manter a humidade, limitar as ervas indesejáveis e alimentar o solo.
  • Alternar as culturas, semear adubos verdes e promover a diversidade vegetal na horta.
  • Deixar os caules das flores murchas durante o inverno: servem de abrigo ou de fonte de alimento para muitas espécies.

Assumir um compromisso coletivo e tornar-se num jardim-refúgio

Criar um jardim-refúgio é também integrar uma dinâmica coletiva. Muitas associações, como a LPO (Liga para a Proteção das Aves), propõem atribuir um selo aos jardins favoráveis à biodiversidade. Isto permite receber conselhos, participar em contagens de espécies e partilhar experiências com outros apaixonados.

Existem também outras iniciativas inspiradoras: os jardins partilhados, as sebes campestres plantadas entre vizinhos, os terrenos incultos urbanos transformados em espaços verdes ou os pátios escolares transformados em oásis naturais, entre outras. Cada jardim é importante, mas o seu impacto é muito maior quando formam uma rede.

Que medidas foram adotadas no jardim para favorecer a biodiversidade? Partilhe as suas ideias nos comentários!

Um melro-preto num arbusto espinhoso

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