Quem nunca ouviu falar da borra de café e da sua utilização nas plantas do jardim?

Este produto simples, gratuito, ao alcance de todos, está entre os truques mais populares na internet… esse mundo formidável onde, de dois em dois dias, surge uma nova prática revolucionária ou um segredo de avó (que lhe fornecerá uma curgete de cinco quilos em apenas dezassete minutos ou exterminará todas as lesmas num raio de 3 km). Tudo isto é rapidamente partilhado por toda a comunidade da internet com a máxima "tudo o que está na internet é verdade!" e as raras pessoas com espírito crítico e científico são imediatamente silenciadas pelo espetro da teoria da conspiração.

Ousemos então colocar a questão incómoda: a borra de café no jardim, facto ou mito?

Afinal, já se fala há bastante tempo dos seus benefícios no jardim e seria estranho que, no fim de contas, tudo não passasse de embuste...

Este jovem estará a preparar um remédio milagroso para o seu jardim ou a fazer um café para os seus clientes? Mistério...

A borra de café e as suas múltiplas utilizações no jardim

A borra de café, um bom adubo, rico em azoto, fosfato... e muito mais...

É a primeira coisa que se avança quando se fala dos benefícios da borra de café no jardim: o seu teor em azoto.

A borra de café contém efetivamente entre 2 e 3 % de azoto, o que não é mau, mas trata-se de um azoto que não é diretamente assimilável pelas plantas. A borra de café deve ser compostada para libertar o seu azoto.

Os teores em potássio (0,6%) e em magnésio (0,3%) não são negligenciáveis, bem como os de fósforo (0,05%) e de cobre (0,03%). Estes diferentes elementos são, por sua vez, imediatamente assimiláveis pelas plantas e em teores que podem afastar os riscos de carência.

Em contrapartida, os teores em manganês, zinco, cálcio e ferro são demasiado baixos para serem considerados.

Note-se também que a borra de café contém uma boa quantidade de matéria orgânica, mas uma relação Carbono/Azoto de 24/1. Isto significa que não há azoto suficiente para permitir a decomposição do carbono. Na prática, um aporte de borra de café diretamente no solo terá como consequência que o azoto terá de ser retirado do solo para iniciar a mineralização. Esse azoto deixará assim de estar disponível para as plantas, que ficarão carentes: é a fome de azoto. A decomposição desta matéria orgânica processar-se-á ainda de forma muito lenta.

Em resumo, a borra de café é rica em vários elementos necessários ao crescimento das plantas, mas não mais — e muitas vezes menos — do que um corretivo do solo como o composto bem decomposto, por exemplo. Deve também ser utilizada com moderação para evitar a fome de azoto.

A borra de café, um aliado no combate às "pragas"?

A cafeína que persiste na borra de café possui efetivamente um poder repelente, e até biocida, para os insetos prejudiciais, mas também para os outros artrópodes úteis no jardim e, sobretudo, para as minhocas.

É um repelente bastante eficaz contra as formigas e, por extensão, para evitar posteriormente uma infestação de pulgões. No entanto, colocar borra de café junto a plantas invadidas por pulgões não servirá de nada, pois estes não descem ao solo.

Os moluscos, incluindo as lesmas e os caracóis, não são diretamente sensíveis à borra de café. Podem, quando muito, ser incomodados fisicamente em tempo seco, se rodear as plantas mais frágeis com uma barreira "física" de borra de café. Tal como com a cinza, este método deixa de funcionar com tempo húmido.

Em suma, a ação da borra de café no combate às pragas é fraca e pode ser arriscada. Um aporte em quantidade excessiva pode ter consequências desastrosas para a fauna do jardim e para a pilha de composto. Prudência, portanto...

A borra de café, uma solução para combater as doenças causadas por fungos?

Nenhuma publicação científica conseguiu separar o verdadeiro do falso nesta afirmação. Por enquanto, os resultados dos ensaios em campo não são conclusivos. Mas se for realmente o caso, pode supor-se que a borra de café "não fará diferença" entre os contaminantes fúngicos e a flora benéfica do solo. Mais uma vez, a prudência é aconselhável.

A borra de café, uma vantagem para as plantas de terra ácida?

A borra de café tem um pH à volta de 6-6,5. Poderia supor-se que, uma vez no solo, este se acidificaria para grande satisfação das nossas plantas ditas de "terra de urze".

Na realidade, como qualquer aporte orgânico, observar-se-á uma ligeira acidificação durante a decomposição e a mineralização. Mas o pH subirá em seguida para se aproximar da neutralidade.

Portanto, ilusão total: a borra de café não acidifica o solo.

A borra de café, um inibidor de crescimento?

Estão em curso investigações para determinar se um derivado da borra de café poderá um dia servir como herbicida não seletivo (e sim, mais uma vez...). Pois, de facto, a borra de café pode travar fortemente o crescimento das plantas, chegando mesmo a matar algumas, como é o caso das Solanáceas, como os tomates, as beringelas e até as batatas-inglesas.

Por enquanto, os investigadores não conseguiram demonstrar qual o composto responsável por este poder inibidor, mas já concluíram que não é a cafeína.

A borra de café, um acelerador de composto?

Como vimos anteriormente, em doses elevadas, a borra de café — ou melhor, a cafeína que ainda contém — pode matar as minhocas, nomeadamente as minhocas de composto, tão úteis.

O resultado é então o oposto do esperado. Pensávamos estar a ajudar as minhocas compostadoras ao "estimulá-las" um pouco e, de repente, lá estão elas a morrer. É tudo uma questão de dose... Se pretender mesmo ativar ou acelerar um composto, prefira antes um aporte de folhas de confrei, urtiga ou fetos, ou mesmo um pouco de composto bem decomposto. Será mais seguro...

Em conclusão

Alguns benefícios da borra de café podem ser evidenciados: um aporte de nutrientes, um ligeiro efeito repelente, mas são acompanhados, infelizmente, de demasiados inconvenientes para ser utilizada sem reflexão. Como acontece com todos os corretivos do solo, afinal.

A borra de café não é um produto milagroso, é apenas... borra de café. Não espere, portanto, ver o seu jardim transformar-se de um dia para o outro num paraíso vegetal só porque polvilhou borra de café por todo o lado. Não, disso trata-se a natureza... e o jardineiro.