Calda bordalesa e outros tratamentos à base de cobre no jardim
Tudo o que precisa de saber para os utilizar bem
Resumo
A calda bordalesa é um tratamento fungicida à base de cobre, muito eficaz contra as doenças criptogâmicas, causadas por fungos. Encontra-se facilmente no comércio e apresenta-se sob a forma de um pó azul, para diluir.
A calda bordalesa atua de forma preventiva e por contacto na folhagem das plantas hortícolas ou ornamentais, ou na casca das árvores, evitando a germinação dos esporos dos fungos e a multiplicação das bactérias patogénicas, responsáveis por doenças como o temido míldio.
Este tratamento não penetra nos tecidos da planta (uma boa lavagem é suficiente para o eliminar) e, juntamente com o enxofre, o cobre continua a fazer parte da gama de produtos ainda autorizados em Agricultura Biológica em França. No entanto, é preciso utilizá-la com moderação e precaução, pois o abuso de cobre não é isento de consequências, em particular para o solo!
Fica aqui tudo o que é necessário saber sobre a calda bordalesa, a sua utilidade no jardim e a forma de a utilizar.
A calda bordalesa, o que é?
A calda bordalesa é elaborada com sulfato de cobre, obtido pelo tratamento do cobre metálico com ácido sulfúrico. O cobre adquire uma coloração azul em contacto com a água, mas é muito corrosivo. Puro, contém 25% de cobre metálico e não deve ser aplicado nas plantas. Neutralizado com cal, deu origem à famosa receita da calda bordalesa, descoberta em 1883.
Apresenta-se sob a forma de um pó finamente micronizado, solúvel em água, que contém 20% de cobre metálico. Este sal de cobre possui a ação mais prolongada, uma vez que a libertação dos iões de cobre se processa lentamente ao longo de cerca de 3 semanas, desde que não seja removida por lixiviação devido a precipitações.
A título informativo, o cobre provém de um minério, na maior parte das vezes sob a forma de sulfuretos. As principais minas situam-se no Canadá, na Zâmbia, na República Democrática do Congo, no Chile, na Rússia, entre outros países, mas o recurso torna-se cada vez mais escasso.

A calda bordalesa: uma substância tradicional, autorizada, mas não isenta de consequências
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O cobre possui um amplo espectro de ação sobre fungos e bactérias, o que torna o seu uso bastante comum no jardim, seja ele hortícola ou ornamental, e no pomar.
A calda bordalesa permite combater:
- o míldio da videira, da batata-inglesa, do tomate,
- a podridão cinzenta (botrítis) da videira, dos morangeiros,
- a moniliose das árvores de fruto ou podridão dos frutos (macieiras, pereiras, cerejeiras…),
- a crespeira do pessegueiro, do pessegueiro-brugnão, da nectarineira,
- a sarna da macieira, da pereira,
De notar que o cobre permite tratar as doenças mas pode também exercer uma ação secundária, útil para a conservação dos frutos.

Videira tratada com calda bordalesa
Como age a calda bordalesa?
Os tratamentos à base de cobre (calda bordalesa e outros) atuam contra as infestações de fungos e bactérias. É um tratamento que atua por contacto: o cobre permanece na superfície das plantas e não circula na seiva.
A calda bordalesa atua a dois níveis:
- a título preventivo: inibe a germinação dos esporos de fungos, mas não destrói o fungo depois de este ter germinado e se ter instalado nos tecidos da planta. Por conseguinte, nas plantas conhecidas pela sua sensibilidade às doenças criptogâmicas (roseiras, fruteiras, batata-inglesa, videira, tomate), deve ser aplicada antes mesmo de os sintomas da doença serem visíveis, pois as novas brotações não estão protegidas.
- a título curativo: o cobre atua sobre as bactérias a diferentes níveis. Bloqueia o processo respiratório, trava a síntese de proteínas e diminui as trocas membranares… o que reduz fortemente a intensidade do seu ataque.
Note-se que o enxofre apresenta praticamente a mesma eficácia contra os fungos que o cobre, mas não contra as bactérias.
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A utilização da calda bordalesa deve ser ponderada e realizada nos períodos de crescimento das plantas adequados, de modo a evitar excessos de tratamentos.
Quando tratar
- Na horta e no jardim
Como vimos, na horta e no jardim ornamental, é importante tratar as plantas de forma preventiva. Intervenha quando as condições meteorológicas (calor, humidade…) são favoráveis à propagação da doença ou, o mais tardar, assim que surjam os primeiros sinais de doença.
- No pomar
Nas árvores de fruto, o outono e a primavera são momentos-chave para prevenir as doenças criptogâmicas. Mas atenção, o cobre provoca necroses nos jovens rebentos não lenhificados — não realize os tratamentos demasiado cedo no outono! Queima o pólen, pelo que também não deve tratar durante a floração.
Para as árvores de fruto, recomendamos assim tratar:
- Antes da queda das folhas, de agosto a meados de outubro
A sarna, que se manifesta principalmente em macieiras, pereiras e cerejeiras, surge sob a forma de manchas oliváceas que se tornam encortiçadas, primeiro nas folhas e depois nas flores e nos frutos — trate imediatamente antes da queda das folhas e uma segunda vez antes do inchamento dos gomos. A doença é favorecida por tempo húmido acompanhado de temperaturas amenas. De seguida, trate uma ou duas vezes com outro fungicida natural, como a decocção de cavalinha, que também atua de forma curativa.
- Durante a queda das folhas, de meados de outubro a novembro
A moniliose aparece sob a forma de anéis concêntricos brancos na casca dos frutos. Afeta as macieiras, cerejeiras, damasqueiros, pereiras, cerejeiras, nectarineiras, pessegueiros, marmeleiros…
O tratamento com cobre é aconselhado durante a queda das folhas e um segundo tratamento imediatamente antes do inchamento dos gomos.
- Após a queda total das folhas, de dezembro a fevereiro
Para prevenir a crespeira do pessegueiro, basta um único tratamento realizado logo após a queda total das folhas ou no início da primavera, antes do inchamento dos gomos de madeira. A doença é favorecida por temperaturas baixas (10-15 °C) e tempo húmido no momento do abrolhamento. As folhas, uma vez desenvolvidas, tornam-se menos recetivas à infeção; os tratamentos realizados no final da primavera, após a abertura dos gomos ou durante o verão, são inúteis.
Note-se que os pessegueiros e as pereiras são particularmente afetados no seu desenvolvimento pela aplicação de cobre. As cerejeiras, os damasqueiros e as alfaces são-no um pouco menos, enquanto a videira, as Solanáceas (tomates, beringelas) e as Cucurbitáceas (abóboras-gigantes, melões, pepinos) são-no muito pouco.
Por fim, saiba que os tratamentos com cobre são úteis, mas não devem ser sistemáticos nem demasiado frequentes. Intervenha apenas se tiver verificado a presença de uma doença no ano anterior.
Na prática: preparar a calda bordalesa e tratar
Para preparar a sua calda bordalesa, basta misturar o pó azul com água, num pulverizador.
As doses de utilização estão geralmente indicadas na embalagem; variam de 5 gramas a 25 gramas por litro de água, em função da planta tratada e da doença visada.
A dose pode ser reduzida a metade se adicionar um agente molhante (que permite ao produto fixar-se melhor na planta). Para isso, pode utilizar leite magro (100 ml por 1 litro de preparação) ou sabão líquido (10 gramas por litro).

Para a aplicação do tratamento, eis algumas regras elementares a respeitar:
- Proteja-se com luvas, máscara e óculos de proteção (o facto de um tratamento ser utilizável em agricultura biológica não significa que não seja tóxico)
- Pulverize a calda bordalesa num dia sem vento e sem calor intenso,
- Intervenha apenas quando não estejam previstas chuvas (uma chuva de 20 mm lava por lixiviação o sulfato de cobre da superfície das folhas, que passa assim para o solo — o que obriga a administrar um novo tratamento)
- Trate quando a folhagem estiver seca.
Na prática:
- Pulverize com um bico muito fino, de modo a distribuir gotículas muito finas na face superior e inferior da folhagem,
- Interrompa a pulverização no limite do escorrimento;
- Renove a aplicação de 15 em 15 dias, se necessário.
No final do tratamento, não deite o excedente de calda no solo, nem para um ponto de água ou pelo ralo da pia!
A última aplicação de cobre antes da colheita exige um intervalo de pelo menos 21 dias na videira (5 dias nos legumes), independentemente da formulação do cobre utilizada.
A calda bordalesa, uma substância controversa: as alternativas
A utilização da calda bordalesa, embora autorizada na agricultura biológica, é hoje objeto de debate, em particular quanto ao seu uso agrícola.
Com efeito, o problema é que o cobre não é biodegradável, acumula-se e acaba por apresentar toxicidade para a vida do solo. Este fenómeno ocorre a partir de uma certa concentração resultante de aplicações repetidas ao longo de várias décadas. Do ponto de vista ecológico, traduz-se numa diminuição global da biomassa, da diversidade microbiana e das minhocas… e, por conseguinte, do húmus.
Esta poluição do solo parece irreversível. É particularmente problemática nos solos agrícolas de natureza ácida e arenosa.
Há cerca de vinte anos, o melhor conhecimento dos ciclos dos agentes patogénicos permitiu reduzir o número de aplicações e adaptar a dose de cobre suficiente para evitar a infestação. Esta nítida redução das doses permitiu não agravar a situação dos solos, mas não deixa de constituir um perigo para o ambiente, para os utilizadores e para a potabilidade da água da torneira.
No jardim, a acumulação de cobre geralmente não representa um problema, mas para quem for sensível às questões ambientais, saiba que é possível:
- Utilizar melhor o cobre, sob outras formas que não a tradicional calda bordalesa,
- Substituir o cobre por fungicidas alternativos,
Primeira solução: utilizar melhor o cobre no jardim
Embora tóxico em doses elevadas, o emprego do cobre continua a ser um tratamento fiável, utilizado há mais de um século em França, mesmo em Agricultura Biológica, em parte devido à ausência de habituação, o que faz com que a sua ação conserve a eficácia.
A solução para evitar os seus efeitos negativos consiste em realizar aplicações moderadas, efetuadas nos períodos certos do crescimento das plantas, de forma a evitar o excesso de tratamentos.
Para melhorar a eficácia do cobre, pode também utilizá-lo sob outras formas:
- O hidróxido de cobre
O sulfato de cobre é aqui tratado com soda para dar origem a um produto de eficácia imediata, mas mais facilmente sujeito a lixiviação. É menos tóxico para a planta em folha do que a Calda Bordalesa. Contém 50% de cobre metálico e a sua dose de utilização* é de 5 a 10 g/l consoante o uso.
- O Oxicloreto de cobre
O Oxicloreto de cobre resulta do tratamento do Cobre metálico com ácido clorídrico e contém 50% de cobre metálico. Sofre lixiviação um pouco mais lentamente do que o hidróxido de cobre e revela-se igualmente menos tóxico para a planta em folha do que a Calda Bordalesa. Tem ainda a vantagem de manchar menos. A sua eficácia é maior do que a dos outros dois produtos no combate a ataques de bactérias, como o cancro bacteriano das árvores de fruto. A sua dose de utilização* é de 2,5 a 5 g/l.
No final, para quem pretender conservar um tratamento à base de cobre, o Oxicloreto de cobre revela-se a opção mais acertada, pois age sobre as bactérias, algo que os tratamentos alternativos não oferecem verdadeiramente por enquanto.
*A dose de utilização está constantemente a ser revista em baixa graças ao emprego de adjuvantes como o leite magro ou o sabão e a novas regulamentações.
Entre as três matérias cúpricas (derivadas do cobre) mais utilizadas, algumas revelam-se mais eficazes contra determinadas formas de doenças:
| Matéria ativa | Calda bordalesa
(Sulfato de cobre) |
Oxicloreto de cobre | Hidróxido de cobre |
| Doenças tratadas com maior eficácia |
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Estão a ser colocadas no mercado novas formulações à base de cobre, que servem igualmente de adubos foliares graças:
- ao seu teor em oligoelementos (Cuivrol),
- ou em plantas fungicidas como a cavalinha, a urtiga, o absinto, a casca de carvalho, associadas ao litotâmnio (rico em cálcio) e ao oxicloreto de cobre (Ferticuivre).
Estes produtos reduzem a quantidade de cobre administrada na planta.

Segunda solução: utilizar outros fungicidas para substituir o cobre
Existem outros fungicidas para além do cobre recomendados em Agricultura Biológica e Biodinâmica, tais como:
- o enxofre, aconselhado nomeadamente para prevenir o oídio e os ácaros,
- o bicarbonato de sódio, em aplicação curativa na sarna da macieira, no oídio dos legumes e das plantas ornamentais (misture 1 colher de sopa de bicarbonato de sódio em 4 l de água e 2 colheres de sopa de sabão. Renove a pulverização após a chuva.)
- o hidróxido de cálcio em aplicação preventiva e curativa nos cancros das árvores de fruto,
- a decocção de casca de salgueiro em aplicação preventiva nas árvores de fruto (oídios, sarna e fungos foliares),
- o óleo de girassol em aplicação curativa no oídio do tomate,
- a lecitina em aplicação preventiva e curativa nos oídios dos legumes e das plantas ornamentais, no míldio do tomate,
- a decocção de cavalinha ou o palhiço de cavalinha (90 g/kg de palhiço) em aplicação preventiva e curativa na maioria das doenças (manchas negras e ferrugem na roseira, oídio, míldio, moniliose)
- o purim de urtiga em aplicação preventiva na maioria das doenças…
- o talco em aplicação preventiva contra a sarna…
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