Resumo

Modificado 0,01  por Olivier 7 min.

Um solo húmido apresenta desafios e oportunidades únicos para a jardinagem. A sua tendência para reter água pode ser problemática, criando um ambiente propício às doenças criptogâmicas e podendo revelar-se asfixiante para as plantas que não toleram um enraizamento constante num meio húmido. Além disso, este tipo de solo tende a aquecer mais lentamente na primavera, atrasando assim o início da estação de crescimento.

No entanto, com as técnicas adequadas e uma seleção criteriosa de plantas, é perfeitamente possível cultivar uma horta florescente num terreno húmido. Nesta ficha de conselhos, vamos explorar sugestões e dicas práticas para transformar um solo húmido numa mais-valia para o jardim, permitindo que a horta seja um sucesso apesar dos desafios iniciais.

Dificuldade

Como saber se o seu solo é húmido?

Se a questão não se coloca verdadeiramente nas margens de um lago, de um charco ou de um ribeiro, por vezes será mais difícil percebê-lo. Será então necessário usar o sentido de observação ou realizar alguns testes simples.

Observar a topografia

O relevo do terreno pode contribuir para reter a água da chuva. Com efeito, se o terreno estiver em declive, a água tenderá a escorrer para a parte mais baixa; mas se o terreno for uma bacia, se encontrar no sopé de um declive ou no fundo de um vale, então a água tenderá a acumular-se aí.

Quanto a um jardim relativamente plano, é possível que um lençol freático ou nascentes subterrâneas se encontrem mesmo abaixo da superfície. Por vezes é possível observá-lo após fortes precipitações ou vários dias consecutivos de chuva: as planícies cobrem-se de água e as caves sem impermeabilização ficam inundadas. Para confirmar ou afastar totalmente esta hipótese, será necessário recorrer aos serviços de um rabdomante. É também possível encontrar informações no nome do lugar onde se vive. Por exemplo, as cidades e aldeias seguintes: Lille (uma cidade outrora rodeada de pântanos que formavam uma ilha), Allennes-les-Marais, Les Hautes-Rivières, Beaulieu-les-Fontaines, etc.

Reconhecer as plantas que se desenvolvem neste tipo de terreno

Além da topografia, é também possível observar a vegetação que se desenvolve naturalmente no local para perceber a natureza do solo. Com efeito, uma concentração de plantas higrófilas, ou seja, que vivem num solo constantemente húmido e por vezes mesmo inundado, revelar-se-á um bom indicador. Entre elas, encontram-se nomeadamente: o cardo-dos-pântanos, o agrião-das-fontes, o agrião-dos-prados, o Gaillet des marais, a salgueirinha, variedades de junco (esparso, aglomerado), o íris amarelo, o ranúnculo-rasteiro e o ranúnculo-flâmula, o Licopus europaeus, a lisimáquia-vulgar, o epilóbio-hirsuto e o epilóbio-de-pequenas-flores, bem como o amieiro e o salgueiro-cinzento.

jardinar em solo húmido

Lisimáquia-vulgar, amieiro e ranúnculo-rasteiro

A particularidade dos solos argilosos

Existem diferentes tipos de solo: alguns são particularmente drenantes (elevada concentração em areia) e outros retêm a água. É o caso dos solos argilosos, que incham na presença de água e se retraem quando esta está ausente. Este fenómeno é tal que, em períodos de seca, o terreno forma pequenas fendas, enquanto no inverno o solo fica lamacento e a terra é muito pegajosa.

Um método rápido permite conhecer a composição do solo: o teste do frasco. Para o realizar, é necessário um frasco de um litro cheio a 2/3 de água. Deve depois retirar-se uma amostra da terra que se pretende analisar e encher o frasco com ela. Agitar vigorosamente e deixar repousar algumas horas. A areia, sendo o elemento mais pesado, deposita-se primeiro no fundo, seguida pelo limo e, por fim, pela argila. Assim, quanto maior for a proporção de areia, mais o solo será considerado arenoso; quanto mais argila houver, mais será considerado argiloso, etc.
Aqui também, a observação da vegetação pode indicar um solo argiloso: plantas facilmente identificáveis como a erva-das-bruxinhas, o cardo-dos-campos e a tanchagem proliferam neste tipo de terreno.
Por fim, um último método simples permite verificar se se trata de um solo argiloso: o teste do anel. Consiste em humedecer um punhado de terra, rolá-la entre as mãos e formar um anel. Se isso não apresentar qualquer dificuldade, não há dúvida: trata-se de uma terra argilosa.

Cavar um buraco

O tempo anuncia-se chuvoso? Perfeito, é a altura ideal para realizar um último pequeno teste! Para este, é necessário munir-se de uma enxada e cavar um buraco suficientemente fundo e largo (pelo menos 50 cm). Após um aguaceiro forte, observe o tempo que a água demora a escoar; quanto mais tempo demorar a escoar, menos drenante será o solo. Eis alguns pontos de referência: menos de uma hora indica um solo demasiado drenante; acima de quatro dias, é o inverso; o ideal situa-se entre os dois, ou seja, um a dois dias.

De que forma isso pode ser um problema para a horta?

Estes solos são, na sua maioria, argilosos (retêm os nutrientes) ou humíferos (compostos em grande parte por húmus). É um bom ponto de partida para a instalação da horta, pois trata-se de terrenos ricos e férteis, mas a abundância de água traz também os seus inconvenientes.

As doenças criptogâmicas

As doenças criptogâmicas (ou fúngicas) são obra de fungos ou de outros organismos parasitários. Os fungos precisam, na sua maioria, de humidade para se desenvolver. Isso aplica-se aos que consumimos (ceps, trufas, cantarelos, etc.), aos micorrízicos (que vivem no solo em simbiose com as plantas), mas também aos criptógamos.

Cerca de 90% das doenças que afetam as plantas são causadas por estes fungos. A infeção ocorre em três etapas: os esporos são depositados na horta pelo vento ou pela chuva; o fungo desenvolve-se e atinge a planta (os sintomas ainda não são visíveis); e, por fim, aparecem os primeiros sinais da doença.

Infelizmente, será necessário cortar as partes infetadas para travar a propagação e tentar salvar a planta. Atenção: não se devem compostar as plantas infetadas, pois os esporos resistem ao calor e, ao utilizar o composto, reintroduz-se o fungo no solo. É preciso agir rapidamente ao aparecimento dos primeiros sintomas, pois isso significa que o fungo está a preparar os seus esporos, sendo o risco de contaminação do restante jardim muito elevado.

Entre as doenças criptogâmicas mais conhecidas, encontram-se o míldio, a podridão cinzenta, a ferrugem e o tombamento das plântulas. Provocam frequentemente a podridão das raízes ou da planta, causam atrasos no crescimento, atrofiam os frutos e legumes ou impedem a frutificação. Limitar a humidade constante e as rotações de culturas permite evitar o aparecimento destas doenças.

horta terra demasiado húmida

Doenças como o míldio prosperam em clima e em terra húmida

Uma terra fria

A primavera parece ser o melhor momento para lançar a horta, mas atenção: mesmo que a natureza desperte, não convém precipitar-se. O mês de março é frequentemente sinónimo de chuvas abundantes (as famosas aguaceiros) e as geadas tardias ainda chegam em maio (os célebres Santos de Gelo). Note-se que não é a terra que gela, mas sim a água nela contida; um terreno húmido está, portanto, sujeito ao gelo. No início da primavera, os dias ainda são curtos e a insolação não é suficiente para aquecer os solos húmidos.

Muitas variedades de legumes, nomeadamente os legumes-fruto (tomates, curgetes, pepinos, pimentos, beringelas, etc.) precisam de calor para se desenvolver. O risco de uma terra fria é, portanto, que a germinação não ocorra, seja demasiado lenta ou tardia. As plantas serão de má qualidade, a colheita será incerta ou mesmo nula. Para minimizar este problema, é comum preparar as sementeiras em estufa, em canteiro quente, e transplantar plantas um pouco mais robustas na época certa.

Pequena dica: É possível saber se a terra está suficientemente aquecida observando dois elementos ao arranhar ligeiramente a superfície do solo: a terra não cola à ferramenta e as sementes das ervas-daninhas já começaram a germinar.

começar a jardinagem em terra húmida

A primavera chegou, sim, mas em terra húmida é preciso esperar um pouco mais para que ela aqueça

Um solo asfixiante

Sabe-se que as raízes das plantas servem para absorver a água do solo, mas não só. De facto, servem também para captar os nutrientes e minerais essenciais ao seu crescimento. «Respiram» igualmente graças ao ar presente nos poros do solo.

Por conseguinte, uma terra compacta ou encharcada será considerada asfixiante, por ser pouco arejada. A planta ficará então enfraquecida por esta falta de oxigénio, sujeita a doenças e pragas, a fotossíntese não se realizará corretamente, as raízes não explorarão as camadas mais profundas e, naturalmente, a colheita será fraca e de má qualidade.

Fala-se de anoxia quando a asfixia é total e de hipoxia quando esta é parcial. Os sintomas são os seguintes: escurecimento e podridão das raízes e/ou da parte inferior do caule, amarelecimento e necrose dos folíolos ou das folhas baixas da planta, crescimento lento.

As raízes necessitam de um teor de oxigénio de 10%. É possível arejar o solo de diferentes formas:

  • Revolvê-lo com a ajuda de uma pá ou de um motocultivador, o que descompactará o solo e criará pequenas cavidades;
  • Favorecer o desenvolvimento dos micro-organismos presentes no solo, que criarão numerosas galerias, melhorando assim a drenagem do terreno.

Quais são as soluções?

Felizmente, ter um solo húmido não é uma fatalidade. Existem métodos mais ou menos simples, mais ou menos adaptados à natureza do jardim, para contornar ou resolver este problema.

Instalar uma rede de drenos

O método mais duradouro de todos, mas também o mais exigente em termos de instalação, consiste em criar uma rede de drenos. Para isso, é necessário escavar uma vala no sentido do declive, no centro da futura horta, com a mesma largura dos sulcos referidos anteriormente, mas mais profunda: prever pelo menos 70 cm. De seguida, é preciso criar valas perpendiculares, a cada 4 metros aproximadamente, ligeiramente inclinadas em direção à vala central. A etapa seguinte consiste em instalar um feltro espesso e, em seguida, uma manga especial de drenagem em cada vala. O feltro impedirá que as mangas entupam. Depois, basta preencher as valas com uma camada de cascalho de pelo menos 20 cm de espessura e, por cima, terra. No entanto, mais uma vez, este método não é adequado para terrenos argilosos.

Escavar sulcos

Para drenar um terreno demasiado húmido, escavar sulcos em diferentes pontos estratégicos do jardim revela-se um método eficaz e relativamente simples de implementar. Com efeito, basta munir-se de uma enxada e escavar sulcos no sentido do declive (se o terreno não for plano). Estes deverão ter cerca de 30-40 cm de profundidade e 20 cm de largura. Uma vez escavados os sulcos, basta preenchê-los com areia de rio e o trabalho está feito. A areia permitirá que a água escoe com mais facilidade. Atenção, porém: este método é inútil num solo argiloso, pois a argila irá naturalmente reter a água.

Criar um solo vivo

Outra ideia consiste em corrigir o solo de forma a torná-lo vivo, ou seja, a favorecer a vida dos (micro)organismos que nele se encontram. Entre eles, encontramos nomeadamente bactérias, minhocas, insetos e até fungos. O seu papel é decompor a matéria orgânica, criando assim nutrientes essenciais ao crescimento das plantas. A regra fundamental para trazer vida à horta é ter sempre uma cobertura do solo, seja através de uma camada de mulching, seja semeando um adubo verde (planta escolhida pelas suas contribuições para o solo, não será colhida). Pode-se também deixar as raízes no solo durante a colheita; serão degradadas pelos micro-organismos e as galerias que deixarem facilitarão o escoamento da água. Este método é mais demorado do que o primeiro, pois é preciso dar à natureza algum tempo para fazer o seu trabalho. Este método combina muito bem com o anterior.

A cultura fora do solo

Em vez de resolver o problema da água, a instalação de uma horta elevada permitirá contornar o problema. Libertamo-nos assim das condicionantes do solo, criando o solo ideal para as nossas necessidades. São muitas as opções disponíveis: pode-se optar, por exemplo, por canteiros quadrados, caixas elevadas para facilitar o jardinar ou até pela mota de permacultura. Antes de avançar e fazer a sua escolha, é importante definir as suas necessidades, pois será necessário escolher o material a utilizar para elevar a horta: uma mistura de terra vegetal, humus, composto (e até madeira morta no caso de uma mota de horta) em proporções diferentes consoante a cultura que se pretende instalar. Esta é a grande vantagem deste método: conhece-se perfeitamente a composição do solo e este está pronto a receber a horta. Recomenda-se uma elevação mínima de 40 cm para evitar que as raízes cheguem demasiado rapidamente ao solo original; esta proximidade permitirá as trocas nutritivas entre as duas camadas e as plantas terão uma reserva de água ao alcance das raízes, se necessário.

O cultivo de legumes adaptados

O método mais rápido e mais simples é plantar apenas legumes adaptados ao solo. Assim, num solo argiloso, privilegia-se o cultivo de alcachofras, beringelas, acelgas, Chicórias, couves, espinafres, feijões, ervilhas, ruibarbo, tomates. Os legumes de raiz não apreciam solos asfixiantes, mas podem ainda assim adaptar-se a solos argilosos. Por fim, a natureza do solo tem também influência no sabor.

Já num solo bem humífero, é preferível orientar-se para o cultivo de beringelas, pepinos, curgetes e, de forma mais abrangente, abóboras, melões, pimentos e pimentos vermelhos. Se esta solução é a mais fácil, a ideia de se limitar a cultivar apenas as plantas hortícolas adaptadas não é muito satisfatória.

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Elevar a horta, cultivar legumes adaptados, aplicar mulching e escavar sulcos: algumas das dicas para remediar o solo húmido

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