Cultivar uma horta junto a um campo agrícola: que impactos? Que soluções?
Quais são os riscos de fazer jardinagem perto de talhões agrícolas?
Resumo
Ter uma pequena horta no campo é muitas vezes um sonho para cultivar os próprios legumes e frutos. Mas quando esta horta confina com um campo agrícola cultivado segundo os princípios da agricultura intensiva, a realidade pode revelar-se um pouco mais complicada. Para além dos incómodos olfativos ou sonoros, totalmente inofensivos, são sobretudo os produtos fitossanitários que levantam questões. Entre a deriva de pesticidas, a poluição do solo e os impactos na saúde e na biodiversidade, as consequências podem ser graves, embora invisíveis no dia a dia. Quais são, então, os verdadeiros impactos de uma horta na bordadura de um campo agrícola? O que diz a lei? E como proteger-se?
Descubra tudo o que precisa de saber sobre os riscos e as soluções associados à proximidade de uma horta de um talhão agrícola cultivado.
Riscos bem reais de contaminação por pesticidas
Se a sua horta for contígua a um campo cultivado em agricultura biológica, não há motivo para preocupação. No entanto, quando se trata de agricultura intensiva, a situação é diferente.
A deriva dos pesticidas
Um dos primeiros riscos a que a sua horta está exposta é a deriva dos produtos fitofarmacêuticos utilizados nos campos. Quando um agricultor pulveriza um herbicida, um fungicida ou um inseticida, uma parte das gotas pode ser transportada pelo vento, por vezes ao longo de várias dezenas de metros. Isso depende do tipo de equipamento utilizado, da velocidade do vento (o tratamento é proibido se ultrapassar 20 km/h), da humidade do ar e da hora da pulverização, mas também do tipo de bico utilizado. Se estiver situada nas imediações, a sua horta pode, portanto, receber resíduos sem que dê por isso.
Aliás, nos últimos anos, foram instaurados processos judiciais para denunciar os riscos da exposição passiva aos produtos fitofarmacêuticos. Está claramente comprovado que estes produtos podem afetar a saúde dos moradores das proximidades, para além da saúde dos agricultores que os utilizam.

Um dos primeiros riscos a que a sua horta está exposta é a deriva dos produtos fitofarmacêuticos utilizados nos campos
O escoamento superficial e a infiltração
Em caso de chuva após um tratamento, os pesticidas podem também escorrer para as zonas mais baixas, incluindo para a sua horta, sobretudo se houver um declive, mesmo ligeiro. Também podem infiltrar-se no solo e alcançar as raízes das suas plantas, ou até as águas subterrâneas. As análises demonstraram que os resíduos de pesticidas podem persistir durante muito tempo nos solos e contaminar as culturas vizinhas. Estudos da autoridade francesa de saúde pública demonstraram inclusive a presença destas substâncias no cabelo de crianças que vivem perto de campos agrícolas.
A contaminação dos seus legumes
Se cultivar legumes «biológicos» na sua horta, estes resíduos podem comprometer a qualidade das suas colheitas. Torna-se difícil garantir a ausência de produtos químicos, mesmo que cumpra escrupulosamente os princípios do cultivo biológico.
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Como escolher corretamente o local da horta?Efeitos na saúde e na biodiversidade
A proximidade de um campo agrícola cultivado perto da sua habitação e do seu jardim pode ter efeitos particularmente nefastos, tanto na sua saúde como no ambiente.
A exposição humana aos pesticidas
A proximidade de um campo tratado pode provocar uma exposição crónica aos pesticidas, através do ar, da água ou dos alimentos. Vários estudos associaram esta exposição a um aumento do risco de certos tipos de cancro, como as leucemias, de perturbações hormonais, de doenças neurodegenerativas e de asma. As crianças, as mulheres grávidas e as pessoas imunodeprimidas são particularmente vulneráveis.
Que impacto na biodiversidade?
A sua horta é também um ecossistema, frequentemente rico em insetos polinizadores, minhocas, aves e pequenos mamíferos, como os ouriços-cacheiros e os musaranhos… No entanto, os produtos utilizados na agricultura convencional podem matar ou enfraquecer estes organismos, essenciais para a saúde do solo e para a polinização das suas plantas. É bem conhecido o impacto que os pesticidas podem ter nas abelhas domésticas e solitárias, principais polinizadoras dos legumes, frutos e flores.
O que diz a lei?
A lei regulamenta agora de forma mais rigorosa o uso de pesticidas, sobretudo nas proximidades de zonas habitadas.
As zonas sem tratamento (ZNT)
Desde 2019, a Portaria de 27 de dezembro de 2019 do Ministério da Agricultura, relativa às medidas de proteção das pessoas durante a utilização de produtos fitofarmacêuticos, complementada pela Portaria de 25 de janeiro de 2022, impõe zonas sem tratamento (ZNT) à volta de habitações, jardins e locais que acolham pessoas vulneráveis:
- 5 metros para as culturas baixas (trigo, milho, legumes)
- 10 metros para as culturas altas (árvores fruteiras e pequenos frutos, videiras, culturas de lúpulo…)
- 20 metros incompressíveis para os produtos mais tóxicos mencionados na Portaria de 4 de maio de 2017 relativa à comercialização e utilização de produtos fitofarmacêuticos e dos seus adjuvantes.

As zonas sem tratamento (ZNT) são agora obrigatórias
Estas distâncias podem ser reduzidas até 5 metros para a arboricultura e até 3 metros para as outras culturas, se o agricultor utilizar pulverizadores equipados com bicos antideriva que limitem as projeções. O agricultor pode também comprometer-se, através de uma carta departamental, a avisar os moradores das proximidades ou a respeitar determinados horários.
Por fim, é proibido pulverizar quando o vento é superior a 19 km/h.
O dever de informação
Os agricultores têm também a obrigação de manter um registo dos seus tratamentos fitossanitários e de informar os vizinhos em caso de tratamento nas proximidades de habitações.
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Como preparar o solo para começar a sua horta?Como proteger eficazmente a sua horta?
Mesmo que não seja possível impedir o agricultor vizinho de tratar as suas culturas, é possível limitar os riscos para a horta e para a saúde.
Manter alguma distância
Instale a horta o mais longe possível do campo, ou até no lado oposto. Se estiver rodeado de campos agrícolas, respeite uma distância de pelo menos 5 a 10 metros da borda do campo, ou mais, se possível. Se o agricultor utilizar substâncias preocupantes, a ZNT pode estender-se até 20 metros e a horta não deverá ficar nessa zona.
Criar uma sebe densa e alta
Uma sebe espessa e alta pode funcionar como um filtro natural e uma barreira, reduzindo a deriva dos produtos químicos. Para que seja eficaz, deve ter pelo menos 2 metros de altura. O sistema radicular dos arbustos e das árvores escolhidos também terá impacto no escoamento da água. Estas sebes proporcionam igualmente abrigo à fauna útil do jardim, como as aves e os polinizadores. Por exemplo, podem plantar-se alguns dos seguintes arbustos ou árvores:
- Cipreste-de-leyland (Cupressocyparis leylandii): crescimento superior a 1 m por ano, folhagem muito densa, excecional como corta-vento
- Tuia (Thuja spp.): cresce cerca de 50 a 60 cm/ano, adequada para sebes compactas
- Fotínia ‘Red Robin’ (Photinia × fraseri): folhagem jovem de um vermelho vivo, crescimento rápido e aspeto ornamental
- Alfeneiro (Ligustrum): persistente, muito denso, resistente, cresce rapidamente em sebe
- Loureiro-cerejeira (Prunus laurocerasus): folhagem persistente e abundante, crescimento vigoroso, ideal para uma sebe espessa
- Eleagno (Elaeagnus ebbingei): folhagem prateada, muito tolerante à seca, ao vento e ao sal, crescimento rápido
- Pitosporo (Pittosporum tobira e outras espécies): persistentes, com florações bonitas e crescimento contínuo
- Arónia (Aronia): crescimento rápido, bagas apreciadas pelas aves
- Espinheiro-marítimo (Hippophae rhamnoides): crescimento contínuo, frutos ricos em vitaminas, suporta solos difíceis
- Nespereira, sabugueiro, corniso: sebe campestre variada, com frutos úteis para as aves
- Aveleira (Corylus): crescimento rápido, frutos apreciados pela fauna selvagem
- Bambus não invasores (Fargesia): sebe persistente com 2 a 3 m de altura, crescimento rápido, manutenção reduzida
- Miscanto: sebe persistente com 2–3 m, cresce rapidamente e requer pouca manutenção
- Paulownia tomentosa (paulónia): crescimento fulgurante, até 2 m/ano, folhagem muito larga, excelente para criar sombra. Floração malva na primavera, atrai abelhas e borboletas.
- Salgueiro-branco tortuoso (Salix alba): árvore rústica, de crescimento muito vigoroso, desenvolve-se em solos frescos ou húmidos. Crescimento rápido, bom corta-vento, atrai as aves.
- Choupo-negro (Populus nigra): crescimento de até 1,5 m/ano. Muito utilizado em alinhamentos agrícolas. Atenção: raízes vigorosas, deve ser plantado longe de qualquer estrutura.
- Freixo-europeu (Fraxinus excelsior): árvore de sebe campestre, crescimento rápido, madeira clara, folhagem ligeira. Abrigo para aves e insetos.
- Eucalyptus gunnii: muito ornamental, crescimento superior a 1 m por ano, folhagem aromática. Deve ser plantado num solo bem drenado.

Sebe alta e vala vegetada protegem da deriva e do escoamento dos produtos fitossanitários
Instalar sistemas de drenagem
Se o terreno for inclinado ou estiver sujeito ao escoamento da água, pode ser útil instalar uma vala ou uma vala vegetada para abrandar o fluxo da água e reter as partículas químicas antes de chegarem à horta.
Falar com o agricultor
Uma boa comunicação pode fazer toda a diferença. Fale-lhe das suas preocupações e peça para ser informado antes dos tratamentos. Alguns agricultores aceitam tratar as culturas em horários menos expostos ou utilizar bicos que reduzem a deriva dos pesticidas.
Durante os tratamentos, é aconselhável fechar as portas e as janelas e permanecer dentro de casa, de modo a limitar a exposição aos pesticidas.
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