Répteis no jardim: como identificá-los? Como atraí-los?
Lagartos, cobras, licranços... todos estes répteis são preciosos auxiliares no jardim
Resumo
À partida, sei que o meu artigo poderá causar alguns arrepios às pessoas mais fóbicas. Com efeito, os répteis são alvo de muitas ideias preconcebidas, preconceitos e outros juízos antecipados. No entanto, os acidentes relacionados com uma mordedura (de uma cobra venenosa ou de outro animal) continuam a ser muito raros, sobretudo quando se adota a atitude correta perante estes répteis, que se encontram habitualmente nos jardins. Em caso de encontro inesperado com uma cobra, um licranço ou outro animal de sangue frio, basta manter uma distância segura, sem tentar afugentá-lo ou capturá-lo. Este réptil terá certamente mais medo do que quem o encontra, e a sua primeira reação será fugir e procurar abrigo.
Para acabar de convencer, saiba que estes répteis são auxiliares muito eficazes no jardim, ajudando-o a livrar-se dos insetos nocivos, das lesmas e dos caracóis.
Descubra quais os répteis que podem encontrar refúgio no jardim, qual a sua utilidade e como atraí-los.
Que répteis se podem encontrar num jardim?
É evidente que os répteis são mais numerosos na natureza do que nos jardins. Infelizmente, a destruição dos seus habitats naturais e o uso de pesticidas afetam-nos e, por vezes, ameaçam a sua sobrevivência, tal como a das aves ou dos ouriços-cacheiros. É por isso que o seu jardim pode constituir um excelente local de acolhimento para diferentes espécies de répteis, mesmo quando a sua superfície é modesta.
Com efeito, num jardim, um réptil pode encontrar tudo aquilo de que necessita para viver: uma fonte de alimento, locais para se aquecer ao sol — pois os répteis precisam de regular a temperatura corporal —, refúgios onde se esconder em caso de ataque de predadores ou de intempéries, abrigos para hibernar e locais de postura para a incubação dos ovos. Naturalmente, estas necessidades variam de uma espécie para outra, mas várias espécies de répteis podem perfeitamente coabitar no seu jardim.
Então, quais são os répteis que podem escolher o seu jardim para viver?
Os lagartos e os licranços
Pois é, os lagartos e os licranços estão classificados na mesma categoria, simplesmente porque são saurianos! E, apesar da sua aparência de serpente, o licranço-comum ou licranço-frágil (Anguis fragilis) é, na realidade, um lagarto sem patas, reconhecível pelas pálpebras móveis, pelas escamas ventrais e pelos movimentos nitidamente menos ondulantes do que os das serpentes. Para saber tudo sobre este lagarto um pouco particular, consulte o artigo da Oliveira: O licranço-comum ou licranço-frágil, o famoso «lagarto sem patas».

Sob a sua aparência de serpente, o licranço é um lagarto
Entre os lagartos, é possível encontrar diferentes espécies em todo o território de Portugal continental: o lagarto-da-muralha (Podarcis muralis), o lagarto-das-souches (Lacerta agilis), o lagarto-verde ou lagarto-de-duas-listras (Lacerta bilineata) e o lagarto-vivíparo (Zootoca vivipara) junto dos pontos de água. No sul de França, podem encontrar-se outras espécies, como o lagarto-ocelado e o lagarto-catalão…
Estes lagartos apresentam características físicas ligeiramente diferentes de uma espécie para outra:
- O lagarto-das-souches mede cerca de 25 cm de comprimento, tem um corpo atarracado e uma cabeça curta, e apresenta uma coloração parcialmente verde nos flancos e na cabeça, sobretudo durante o período de reprodução no macho
- O lagarto-da-muralha mede menos de 20 cm. A cabeça e o corpo são bastante achatados, e a cauda é fina e comprida. Apresenta uma coloração que varia entre o cinzento e o castanho, maculada de escuro. É a espécie mais comum
- O lagarto-de-duas-listras ou lagarto-verde: é um lagarto que pode atingir 40 cm de comprimento, com uma cabeça alongada. Apresenta uma coloração verde em todo o corpo, com a garganta azul e linhas brancas
- O lagarto-vivíparo: é um lagarto cujo comprimento não ultrapassa os 16 cm, com a cabeça e o corpo não achatados e uma cauda robusta. Vive junto de zonas húmidas.

Os lagartos mais frequentemente encontrados no jardim: lagarto-da-muralha, lagarto-das-souches, lagarto-verde e lagarto-vivíparo
As serpentes
Chegamos ao parágrafo mais assustador para os ofiófobos! Se dispuser de um jardim grande e acolhedor, algumas serpentes podem instalar-se nele discretamente. Encontram-se principalmente cinco espécies de serpentes, entre cobras e víboras. Recorde-se que as cobras são totalmente inofensivas, enquanto as víboras são venenosas, mas muito ariscas. As cobras distinguem-se das víboras pelas pupilas redondas, pelo focinho arredondado e pelas escamas na cabeça.
- A cobra-de-esculápio (Zamenis longissimus): com um comprimento entre 110 e 160 cm, esta cobra esguia tem uma cabeça fina, um focinho arredondado e uma coloração uniforme que varia entre o castanho e o bege-amarelado, salpicada de branco
- A cobra-de-colar ou cobra-de-água (Natrix helvetica): mede até 140 cm de comprimento e distingue-se sobretudo pela sua coloração cinzenta a verde-azeitona, com um colar preto e amarelo atrás da cabeça. Também surgem bandas pretas nos flancos e por baixo dos olhos
- A cobra-lisa (Coronella austriaca): é uma cobra pequena, com cerca de 70 cm de comprimento, e um corpo bastante atarracado, de cor cinzento-acastanhada. Uma faixa escura estende-se do focinho até à parte posterior dos olhos, e é visível uma mancha escura atrás da cabeça
- A víbora-europeia (Vipera berus): serpente venenosa com aproximadamente 60 a 80 cm de comprimento, de corpo e cabeça largos, focinho não arrebitado e íris amarela-alaranjada. Apresenta um ziguezague escuro muito marcado no dorso
- A víbora-cornuda (Vipera aspis): serpente venenosa de pequeno porte, com 50 a 70 cm, corpo espesso, cauda curta, focinho arrebitado e íris amarela-dourada. Reconhece-se pelas bandas dorsais pretas no dorso.
Também aqui, consoante a região, podem encontrar-se outras serpentes, cobras ou víboras.

Cobra-de-colar, víbora-europeia, cobra-de-esculápio, cobra-lisa e víbora-cornuda
As tartarugas
Na natureza, é possível encontrar algumas tartarugas, entre as quais a tartaruga-de-Hermann (Testudo hermanii) no Var e na Córsega, a tartaruga-grega (Testudo graeca) ou a tartaruga-da-Flórida invasora (Trachemys scripta), introduzida há algumas décadas e incluída nas espécies exóticas invasoras preocupantes para a União Europeia.
De que forma são os répteis auxiliares no jardim?
À semelhança de muitas espécies animais, os répteis desempenham um papel essencial no funcionamento e na preservação dos ecossistemas. Participam ativamente na manutenção do equilíbrio dos meios naturais, mas também do seu jardim, enquanto predadores, mas também enquanto presas de outras espécies. Além disso, os répteis sofrem as consequências de diversas ameaças, como a predação por espécies selvagens ou domésticas (gatos) e a degradação dos seus habitats (estradas, manutenção motorizada dos espaços verdes…).

Os répteis são auxiliares eficazes no jardim
No jardim, os répteis revelam-se muito úteis no controlo das pragas. A maioria dos répteis é insetívora, o que faz deles preciosos auxiliares no controlo biológico que realiza no jardim ou na horta. Assim, um lagarto alimenta-se, por exemplo, de lagartas, gafanhotos e grilos, bichos-de-conta, aranhas, pulgões e lesmas.
Quanto às cobras, alimentam-se de ratos, ratazanas-do-campo e ratos-do-campo que se instalam no seu jardim e roem os seus legumes de raiz. Ocasionalmente, também podem incluir no seu menu larvas e insetos de grandes dimensões.
Ter um réptil no jardim significa, sobretudo, que este constitui um biótopo perfeitamente equilibrado.
Como acolher os répteis no jardim?
Para poder esperar ver o seu jardim habitado ou frequentado por répteis, há alguns pontos essenciais para os acolher:
- Deixe desenvolver-se um canto de terrenos incultos no jardim, num espaço calmo, afastado da habitação e de preferência soalheiro. Basta deixar crescer as ervas espontâneas, não cortar a relva ou semear um prado florido
- Instale abrigos em diferentes locais do jardim, soalheiros e isolados, perto dos terrenos incultos (pilhas de lenha, ramos, telhas, pedras, folhas secas, restos de corte… para que os répteis aí se refugiem e se aqueçam). Também se pode construir um muro de pedra seca, que unirá o útil ao agradável
- Coloque camadas espessas de cobertura morta junto à base dos arbustos
- Evite os cortes muito rentes, regulando a lâmina do cortador de relva para uma altura superior, de modo a evitar ferir os licranços
- Crie uma pilha de composto para que os licranços e as cobras possam aí pôr os ovos ou dar à luz, ou ainda hibernar. A pilha de composto deve situar-se num local soalheiro e perto de terrenos incultos
- Deixe uma pilha de areia ou de cascalho arenoso, bem drenada na base, num canto isolado, para favorecer a postura
- Escave uma charca se possuir um terreno suficientemente grande. Os anfíbios instalar-se-ão aí e atrairão cobras-de-água-de-colar.
E, sobretudo, será necessário facilitar a deslocação destes répteis no seu jardim e no dos vizinhos, criando corredores de biodiversidade. Os répteis, tal como os outros animais, precisam de alargar o seu território. Do mesmo modo, não hesite em sensibilizar as pessoas próximas para a importância dos répteis num jardim, desmistificando ideias preconcebidas.
Quanto aos gatos, grandes predadores destes répteis, por vezes basta afastá-los colocando ramos espinhosos ou silvas secas à volta dos abrigos e refúgios que instalou no jardim.
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