Se comprar substrato numa loja, há uma probabilidade muito elevada de este conter turfa. De facto, esta é quase sistematicamente integrada nos substratos pelas suas qualidades físicas, em termos de leveza e retenção de água. No entanto, a generalização do seu uso tem um impacto ambiental pesado! Implica a destruição de zonas húmidas com grande importância ecológica. Felizmente, existem soluções para as preservar. Analisemos em conjunto as vantagens da turfa no jardim, as consequências da sua utilização, e descubra como preservar este recurso!

1- O que é a turfa e de onde vem?

A turfa é uma matéria orgânica fóssil que resulta de uma lenta acumulação de matéria orgânica num meio ácido, saturado em água e muito pobre em oxigénio. Estas condições impedem os micro-organismos, bactérias e fungos, de decompor a matéria orgânica, que se acumula assim progressivamente. Estes meios particulares recebem o nome de turfeiras.

Como a matéria orgânica não é decomposta, estes meios são muito pobres em elementos minerais, o que favorece o desenvolvimento de uma fauna e flora específicas. Encontram-se aliás muitas plantas carnívoras (droseras, sarracénias, etc.) nas turfeiras: capturam insetos para completar as suas necessidades nutritivas, uma vez que não conseguem retirar nutrientes do solo, demasiado pobre.

A turfa pode demorar entre 1000 e 7000 anos a formar-se. Não será, portanto, renovável à escala humana. E, a longo prazo, ao fim de um milhão de anos, a matéria orgânica que constitui as turfeiras transforma-se em carvão.

A turfeira do Chitelet, em Xonrupt-Longemer, nos Vosges
A turfeira do Haut-Chitelet, nos Vosges

Existem diferentes tipos de turfa:

  • A turfa loira: provém dos esfagnos. É relativamente jovem (entre 3000 e 4000 anos) e fibrosa. É a parte que se encontra mais à superfície numa turfeira. Tem uma excelente capacidade de retenção de água, pois os esfagnos embebem-se de água. É a turfa mais utilizada em horticultura e no jardim.
  • A turfa castanha: provém de vegetais lenhosos (árvores, arbustos), de carriços, juncos e ericáceas. É mais antiga (cerca de 5000 anos) e encontra-se em maior profundidade. Também pode ser utilizada no jardim, ainda que o seu uso seja menos frequente.
  • Existe ainda turfa negra, mais antiga (até 12000 anos). É utilizada principalmente no tratamento de águas residuais.

Assim, quanto mais escura for a cor da turfa, mais antiga ela é.

2 - As vantagens da turfa no jardim

A turfa tem inúmeras qualidades de que as plantas necessitam, a tal ponto que é difícil substituí-la. Não é por acaso que a sua presença se tornou quase sistemática nos substratos comercializados.

A turfa funciona como uma esponja: armazena a água e os elementos minerais, e evita que o substrato seque demasiado rapidamente. Tem uma excelente capacidade de retenção de água. A turfa é, por isso, ideal para plantas em vaso: como armazena água, é possível espaçar as regas ou esquecer algumas vezes de regar as plantas sem que estas sofram demasiado. Trata-se de uma matéria particularmente leve e arejada, que não compacta: é, portanto, ideal para um bom desenvolvimento radicular. De facto, em vaso, o substrato tem tendência a compactar e a asfixiar as raízes. A turfa tem ainda a vantagem de constituir um substrato estável, que não se decompõe nem se altera.

A turfa é particularmente útil nos substratos destinados à mudança de vaso de plantas de interior, de plantas floridas para o terraço, etc. É também muito utilizada no cultivo de plantas carnívoras, uma vez que corresponde perfeitamente ao seu meio natural.

Existem ainda pastilhas de turfa desidratada, utilizadas nomeadamente para sementeiras. Incham assim que são reidratadas. A turfa é também utilizada para fabricar vasos de turfa comprimida, biodegradáveis.

3 - Quais são os problemas colocados pela utilização da turfa?

Como as turfeiras são meios muito particulares (ácidos, saturados em humidade, pobres em oxigénio), com o tempo, uma flora e uma fauna específicas desenvolvem-se nelas, que não se encontram em mais lado nenhum. Muitas espécies raras e protegidas vivem nas turfeiras e não conseguem adaptar-se a outros meios. São principalmente plantas de solo húmido e ácido. O esfagno é muito característico das turfeiras: trata-se de um género de musgo que se embebe de água e que tende a acidificar o meio. É ele que está na base da formação das turfeiras. Encontram-se também nestas zonas húmidas plantas carnívoras, bem como ericáceas, ciperáceas, ervas-do-algodão, juncos... Da mesma forma, certas plantas (feto-real, molínia, carriço...) formam tufos: estas plantas crescem sobre as suas antigas raízes e folhas mortas, pois estas não se conseguem decompor, formando assim estruturas em torrão ou micro-socalcos.

A flora característica das turfeiras: plantas carnívoras, esfagno, mirtilo, erva-do-algodão...
Algumas plantas representativas da flora das turfeiras: a planta carnívora Drosera rotundifolia, o esfagno Sphagnum palustre (foto Bernd Haynold), o mirtilo-dos-pântanos Vaccinium uliginosum, e o algodão-das-turfeiras Eriophorum angustifolium (foto Udo Schmidt)

Para além da sua grande diversidade biológica, as turfeiras funcionam como uma verdadeira esponja... não apenas ao nível do substrato, mas o mesmo acontece à escala de uma região. Limitam os riscos de inundação e restituem também água durante os períodos de seca. Desempenham um papel crucial no equilíbrio hidrológico de certas regiões. Além disso, as turfeiras armazenam enormes quantidades de carbono (uma vez que podem ser compostas por 50 % de carbono), limitando assim o aquecimento global. Participam na regulação do clima à escala mundial e criam também microclimas frescos. As turfeiras têm ainda a vantagem de filtrar a água: purificam-na, eliminando os diferentes poluentes, funcionando assim como uma estação de tratamento de águas natural! As águas que libertam para o ambiente são, por isso, particularmente puras.

A turfa forma-se à velocidade muito lenta de cerca de 1 mm por ano, ou menos, o que significa que não será renovável à escala humana. Demora milhares de anos a formar-se!

A importância das turfeiras não é "apenas" ambiental: têm também um verdadeiro interesse histórico. Como a turfa se forma de forma muito lenta e a matéria não se decompõe, os objetos bem como os restos vegetais ou animais permanecem intactos, o que permite reconstituir fielmente a história de uma região. Trata-se de verdadeiros arquivos arqueológicos! Foram assim encontrados em turfeiras cadáveres humanos mumificados, em perfeito estado de conservação, com vários milhares de anos. Da mesma forma, os grãos de pólen estão muito bem conservados na turfa, o que permite reconstituir a vegetação e o clima de uma região de milhares de anos atrás.

A turfeira do Vénec, no Finistère, classificada como Reserva Natural Nacional
A turfeira do Vénec, na Bretanha (foto Moreau Henri)

A exploração das turfeiras é um verdadeiro desastre ecológico. Estas são drenadas e secadas para extrair a turfa. Em geral, o solo torna-se depois seco e pobre, e as plantas típicas das turfeiras não poderão regressar.

A destruição das turfeiras não é, infelizmente, recente. No passado, eram frequentemente consideradas meios inúteis e inexploráveis como tal, pelo que foram drenadas para se tornarem superfícies agrícolas.

Os números são reveladores: em França, metade das turfeiras desapareceu nos últimos 50 anos. Felizmente, as que restam estão hoje protegidas, o que não impede a exploração das turfeiras de outros países. Cerca de 70 % da turfa utilizada em França para a horticultura provém dos países bálticos (Estónia, Letónia, Lituânia) ou da Irlanda. Assim, o problema mantém-se, uma vez que são agora as turfeiras desses países que estão ameaçadas.

A turfa extraída de uma turfeira
A exploração de uma turfeira para extração de turfa

4 - Os nossos conselhos e as boas práticas a seguir para preservar este recurso

Felizmente, existem alternativas à turfa, sendo que certos materiais têm a vantagem de ser leves e arejados, retendo ao mesmo tempo a água e os nutrientes: é o caso das fibras de coco, cascas compostadas, fibras de madeira, cascas de pinheiro... Da mesma forma, a vermiculite é ideal para aligeirar o substrato. Existem também substitutos patenteados que são verdadeiras alternativas, como o Turbofibre® (fibra de casca de resinosas, substituto da turfa loira) ou o Hortifibre® (fibra de madeira).

Se cultivar plantas acidófilas, aconselhamos a utilizar agulhas ou cascas de pinheiro compostadas.

O composto de folhas é também uma boa alternativa à turfa, com a vantagem acrescida de ser rico em elementos minerais e micro-organismos. Pode assim preparar o seu próprio substrato, misturando composto bem decomposto, terra de jardim e areia grossa.

Encontram-se hoje no mercado cada vez mais substratos sem turfa, frequentemente compostos de fibras de coco, cascas, fibras de madeira... São perfeitamente eficazes. Descubra, por exemplo, o substrato universal Père François Or Brun ou o substrato universal Ecolabel.

Por outro lado, desconfie da certificação «Bio», que não garante a ausência de turfa — bem pelo contrário! De facto, sendo a turfa por definição um material natural e biológico, pode perfeitamente entrar na composição de substratos «bio». Leia atentamente os rótulos e analise a composição antes de comprar. Prefira a certificação Ecolabel, que garante um substrato sem turfa.

Se apesar de tudo continuar a utilizar substratos com turfa, faça-o com moderação. Limite a sua utilização reservando-a, por exemplo, às plantas de interior e às plantas mais sensíveis, cultivadas em vasos pequenos com fracas reservas de água e elementos minerais, ou às que não toleram a seca. Para as plantas menos frágeis em exterior, em canteiros grandes, pode preparar o seu próprio substrato composto de composto, terra de jardim e areia grossa.

A turfeira e pântano dos Ponts-de-Martel
A turfeira dos Ponts-de-Martel, na Suíça

Para saber mais:

Se comprar substrato numa loja, há uma probabilidade muito elevada de este conter turfa. De facto, esta é quase sistematicamente integrada nos substratos pelas suas qualidades físicas, em termos de leveza e retenção de água. No entanto, a generalização do seu uso tem um impacto ambiental pesado! Implica a destruição de zonas húmidas com grande […]

Os resíduos fazem parte da nossa vida. Mesmo que tendamos cada vez mais a reduzi-los ao mínimo indispensável, há sempre alguma coisa que sobra. O cartão é um deles. 

E é fácil ficar rapidamente soterrado sob toneladas de cartão se não se tomar atenção. Especialmente quando se encomenda plantas online!

Felizmente, todo esse cartão pode ser reutilizado no jardim para várias utilizações: cobertura morta, criação de novos canteiros, composto... 

Este tipo de material está a fazer furor no jardim. Descubra como utilizá-lo.

Que cartão utilizar? 

O mais natural possível! Cartão castanho não tratado e com o menor número possível de impressões, ou mesmo nenhuma. Com efeito, as tintas contêm compostos químicos, nomeadamente metais pesados, que irão poluir o solo. Nunca utilize cartão branco ou colorido pelas mesmas razões. Deverá também retirar do cartão tudo o que não seja biodegradável, como agrafos, fita adesiva... 

A utilização do cartão como cobertura morta 

Nunca se dirá vezes suficientes: não deixe o seu solo a descoberto!

O ideal é plantar muito e em densidade, utilizar plantas de cobertura vegetal ou, quando tal não é possível (na horta, por exemplo), depositar sobre o solo descoberto uma boa camada de cobertura morta. Os benefícios da cobertura morta são múltiplos: manter a humidade do solo, melhorar a sua estrutura, evitar a compactação e a lixiviação, e reduzir a proliferação de ervas-daninhas. 

Para a cobertura morta, tem várias opções: palha, BRF (Madeira Ramial Fragmentada), palha de linho, triturado de miscanto, casca de árvore... e, como não podia deixar de ser, o CARTÃO. 

A utilização de cartão como cobertura morta oferece grandes vantagens para além das de qualquer outra cobertura morta: o cartão é gratuito e a sua reciclagem livra-nos dele; o cartão está também disponível durante todo o ano, ao contrário de certas coberturas mortas mais sazonais como as folhas mortas ou as aparas de relva, por exemplo. Além disso, as minhocas parecem nutrir uma verdadeira devoção pelo cartão, pois tratam de se alimentar dele assim que é colocado. O cartão constitui uma excelente fonte de celulose para elas. 

A colocação de cartão como cobertura morta é simples: 

  • Humedeça bem o solo descoberto;
  • Coloque o cartão em grandes folhas ou em tiras (melhor para uma decomposição mais rápida) sobre o solo descoberto ou simplesmente à volta das plantas; 
  • Regue tudo ainda mais abundantemente do que da primeira vez, para humedecer bem o cartão.
Utilização do cartão como cobertura morta enquanto os arbustos crescem

É mesmo assim tão simples. Para os mais perfeccionistas (como eu), pode esconder-se o cartão, um pouco pouco estético nos primeiros dias, há que reconhecê-lo, com uma fina camada de ramos triturados, de palha ou de outro material. 

A utilização do cartão para a criação de um novo canteiro 

O cartão pode também ser um aliado precioso para a criação de um novo canteiro de horta ou de um novo canteiro ornamental. Cavar o solo é trabalhoso e perturba a sua estrutura e a sua vida. Porque não deixar então as minhocas e os restantes organismos do solo criarem para si um terreno propício à plantação? Com cartão, é uma tarefa bem simples!

  • Roçe ou corte rente a vegetação da zona delimitada;
  • Regue bem;
  • Coloque os cartões de forma plana sobre toda a superfície; 
  • Regue abundantemente de modo a humedecer bem o cartão e coloque pedras grandes ou tijolos na periferia para evitar que o vento o leve para o jardim do vizinho; 
  • Pode depositar uma camada grossa de folhas mortas (se estiver no outono) ou de aparas de relva (se estiver na primavera ou no final do verão) para enriquecer um pouco o canteiro. Pessoalmente, fiz uma vez sem esta camada e... funcionou na mesma. 

A título de curiosidade pessoal... Quando uma amiga me falou desta técnica pela primeira vez, fiquei cético. Como não queria melindrar o sentimento dela, tentei à mesma, convicto de que não ia resultar e de que teria de ir buscar a minha pá e a enxada na primavera seguinte. E, no entanto... Um resultado tão surpreendente quanto eficaz! Bastou plantar diretamente. E isto apesar de ter naturalmente em casa uma terra pesada e compacta. 

Criação de um novo canteiro

Cartão nas lasanhas? 

E a lasanha, afinal? Falo evidentemente das culturas em lasanha, não das do seu prato. A técnica é simples: consiste em fazer sobre o solo uma alternância de camadas de resíduos verdes e de resíduos castanhos. Um pouco como se se cultivasse diretamente num composto em formação. O objetivo é criar rapidamente uma superfície cultivável e fértil. É uma excelente ideia se o seu solo for difícil de cultivar (solo pobre, compacto, com demasiadas pedras...). Além disso, permite preparar o terreno para o ano seguinte sem perder um ano de cultura. Uma cultura em lasanha dura apenas um ano mas, por baixo, o solo ficará perfeito para cultivar ou criar um canteiro, por exemplo (evidentemente, não resolve um eventual problema de pedras...). 

O cartão pode portanto ser utilizado numa cultura em lasanha. Desde logo para a camada de base, como visto anteriormente, mas também para as camadas de resíduos castanhos. O cartão pode fazer as vezes de "camada castanha" em alternância com os resíduos verdes. 

Formação de lasanha

Pode colocar-se cartão no composto? 

Sim, perfeitamente! E o cartão é mesmo bem-vindo para equilibrar a relação carbono/azoto (C/N).

Nos nossos jardins particulares, temos frequentemente muitos elementos ricos em azoto (resíduos verdes): aparas de relva, resíduos de cozinha, ervas-daninhas que ainda não foram à semente... mas, afinal, poucos resíduos castanhos para compostar, como madeira, palha ou folhas mortas. Ora, para que um composto se transforme da melhor forma, também precisa de carbono. O cartão, rico em celulose, é um resíduo "castanho" e será perfeito para fornecer carbono e assim reequilibrar a sua pilha de composto. 

→ Para saber mais sobre a arte de conseguir um bom composto, siga os conselhos da Ingrid sobre o assunto. 

Ainda tem cartão em stock? 

O cartão pode também ser utilizado para sementeiras que precisam de frescura para germinar. Proteja a sua sementeira com o cartão enquanto os jovens rebentos saem da terra. Basta colocar o cartão sobre o solo semeado e verificar todas as manhãs se os germes ainda não emergiram. Se for esse o caso, retire o cartão rapidamente! 

Pode também recuperar tiras de cartão para manter torrões de substrato. Poupará assim vasinhos de plástico para as suas sementeiras de plantas jovens hortícolas ou de flores antes da repicagem. Prefira para isso cartão canelado, que suporta melhor a humidade. Os rolos de papel higiénico são igualmente muito eficazes e têm a vantagem de já terem a forma desejada. Evidentemente, o cartão assim utilizado não pode ser mais do que uma solução provisória, enquanto a planta cresce o suficiente para ser plantada em plena terra. 

cartão para semear
Sementeira em rolos de papel higiénico

Os resíduos fazem parte da nossa vida. Mesmo que tendamos cada vez mais a reduzi-los ao mínimo indispensável, há sempre alguma coisa que sobra. O cartão é um deles.  E é fácil ficar rapidamente soterrado sob toneladas de cartão se não se tomar atenção. Especialmente quando se encomenda plantas online! Felizmente, todo esse cartão pode […]

É inverno. Está frio. E por frio, entenda temperaturas que descem por vezes abaixo dos 0 °C. Sim, sim, mesmo no Sul. O que nos traz um estranho fenómeno físico: a água torna-se sólida. A isso chama-se vulgarmente gelo. Surpreendentemente, o inverno regressa todos os anos, apesar das repetidas tentativas do Homem para aquecer o clima, e, igualmente surpreendente, continua a apanhar muitos jardineiros desprevenidos, que perdem algumas plantas frágeis deixadas sem qualquer vigilância.

Então porque é que a sua planta teve de repente a ideia descabida de gelar sem pedir autorização? Explicamos já a seguir.

Também pode ouvir este podcast:

Porquê a si?

Os vizinhos nunca se queixam do inverno. Quando muito uma resmunguice ou outra quando é preciso retirar a neve de um abeto ou aguardar um período mais ameno para plantar uma árvore, mas fica por aí. E aliás, a neve no jardim é uma maravilha!

Mas para si, o inverno é sinónimo de angústia permanente. Escruta o céu e a sua própria estação meteorológica profissional mal surge uma nuvem no horizonte ou um conhecido se queixa das suas dores reumáticas. Para a maioria dos jardineiros, uma pequena fase de gelo não é minimamente problemática, mas sabe que para si será muito pior! Sente o drama a aproximar-se! Ah! Que vida ingrata!

Porquê ela?

Pois é, porquê ela? Todas as outras plantas sobrevivem normalmente ao inverno e ao gelo sem qualquer problema. E então, zás! É precisamente a sua favorita que leva o golpe. Aquela que o seu tio das Antilhas lhe enviou em caixa climatizada e que teve de ser colocada no jardim com ajuda de helicóptero. Custou uma verdadeira fortuna e era motivo de orgulho, pois ninguém (e por boas razões!) tinha igual na vizinhança. E eis que ela perece do dia para a noite sem sequer avisar. Todas as outras, plantadas mesmo ao lado, não custaram uma décima parte e sobreviveram sem o mínimo problema. Para mais, até parece que estão a rir à socapa...

A sorte ensaia-se! Mas o que é que aconteceu afinal?

Porquê, pura e simplesmente?

O inverno é uma ocasião de mudança de ritmo para as plantas

Os arbustos caducifólios entram em dormência quando perdem as folhas. Trata-se de uma adaptação à dificuldade de absorver água do solo, pois esta torna-se sólida assim que a temperatura desce para valores negativos. Por isso, para não perder demasiada água por evapotranspiração ao nível das folhas, nada mais eficaz do que deixá-las cair simplesmente para o solo. As coníferas, com as suas agulhas, encontraram a engenhosa solução de reduzir a superfície das suas folhas, que são também mais espessas e envernizadas. Mas e as outras persistentes? Abrandam o ritmo, sim, mas não entram em dormência.

Efeito fisiológico durante os períodos de gelo

A maioria das plantas que pode crescer entre nós está preparada para o inverno. Reduzem o teor de água (perdendo as folhas, por exemplo) e aumentam a concentração de sais minerais e de açúcares, o que tem como efeito elevar também o ponto de congelação da água nos tecidos. Se o frio aumentar ainda mais, uma parte da água é expulsa das células para se acumular nos espaços intercelulares. A água que permanece nas células não gelará, pois a concentração de açúcares e sais minerais será ainda mais elevada. Se o frio persistir, aí, é o fim das defesas anticongelação! A água torna-se sólida no interior das próprias células. A água sólida ocupa mais volume do que a água líquida e, pum! A célula rebenta como uma garrafa de vidro que parte quando a água gela no seu interior. Isso manifesta-se através de diversas lesões nas plantas em período de gelo: folhas queimadas, tronco fissurado... Tudo isto pode causar a morte da planta.

O que fazer perante isto?

  • Privilegiar plantas resistentes e adaptadas

Se uma planta é reconhecida como rústica até -15 °C, tudo correrá bem. As plantas indígenas da sua região são igualmente a privilegiar.

  • Ter em conta as zonas de rusticidade... ou não

Para se orientar, existem as chamadas zonas de rusticidade. Dão uma ideia dos extremos de temperatura, mas não são precisas ao ponto de se aplicarem a cada jardim em particular. Tudo dependerá do solo, das exposições, do vento, da orientação do jardim...

  • Olhar à volta

Se um determinado tipo de planta cresce em casa dos vizinhos há anos sem qualquer problema, há todas as razões para acreditar que também resistirá no seu jardim. Além disso, será uma boa oportunidade para conversar com o vizinho sobre o tema favorito de ambos: o jardim.

  • Proteger as plantas frágeis

Se não teve em conta nenhum dos três pontos anteriores (como todos nós!), será necessário proteger as plantas com uma boa camada de composto vegetal ou mineral (pois as pedras podem aquecer durante o dia e restituir o calor durante a noite). Também pode agasalhar a planta com tela de inverno, aniagem... ou mesmo cartão, se não tiver outra coisa à mão. Contamos tudo sobre a proteção das plantas no inverno neste artigo.

Proteção com tela de inverno e plástico de bolhas
  • Evitar a água estagnada

É absolutamente necessário evitar que a água fique junto às raízes. Para isso, não regue antes de um período de gelo e pense sobretudo em colocar uma camada drenante aquando da plantação de uma planta frágil: alguns cascalhos ou um pouco de areia. Ou plante diretamente num pequeno montículo.

  • Plantar no local certo e na altura certa

Conhece o jardim melhor do que ninguém. Sabe portanto onde ficam os locais mais frios e, a contrario, os mais quentes. Identifique-os e instale aí as plantas mais sensíveis ao frio! Evite também plantar estas pequenas preciosidades no outono: não terão tempo de desenvolver um sistema radicular suficiente para passar o inverno sem problemas. Plante de preferência na primavera, quando todo o risco de gelo tiver desaparecido.

Apesar de tudo, a minha planta gelou na mesma! O que faço agora?

A planta parece ter gelado apesar de todas as precauções e outras súplicas... Em primeiro lugar, retire a proteção, se tiver colocado alguma, para a deixar respirar um pouco. Se se fizer sentir um período mais ameno relativamente prolongado (pelo menos duas semanas), regue bem ao pé com água morna. É absolutamente necessário evitar que desidrate. E depois... aguarde! Algumas plantas parecem definitivamente perdidas e... acabam por renascer das cinzas como uma fénix assim que a primavera chega. Aqui está um breve artigo de Michaël sobre o assunto.

O frio não é uma coisa má!

É difícil perder uma planta, sem dúvida. Uma bela e rara, ainda por cima. Mas não se esqueça de que todas as outras plantas precisam do frio para florescer bem, germinar ou fazer madeira: é o que se chama a vernalização. Este período de frio é indispensável a muitos vegetais para passarem da fase vegetativa à fase reprodutiva, ou seja, para desenvolverem a sua floração.
Por isso, não amaldiçoe demasiado o inverno! Este período de frio é variável consoante as espécies e mesmo as variedades, e algumas precisam dele mais do que outras. É por isso que certas plantas só conseguem crescer no Norte.

Em conclusão

"A planta certa no lugar certo." dizia Beth Chatto

E acrescentaria ainda no clima certo e na altura certa. É muito divertido tentar coisas mais exóticas, protegendo-as bem ou encontrando-lhes um microclima. E é aliás muito gratificante ver que algumas prosperam durante muitos anos. Mas chega inevitavelmente o momento fatídico em que a temperatura será demasiado baixa para que aguentem. Pelo menos desfrutou delas durante algum tempo. É nisso que deve pensar...

Não se esqueça também dos períodos de plantação. Não tente plantar uma planta sensível ao frio quando ainda há risco de geadas. O exemplo clássico da plantação demasiado precipitada das dálias, por exemplo...

Em conclusão, se mesmo assim quiser tentar algumas exóticas no jardim: pense em colocar uma camada drenante no fundo do buraco de plantação e plante num local protegido. E sobretudo... deixe fluir. Se a planta sobreviver e prosperar: ótimo! Se morrer: paciência! Ficará espaço para uma nova adoção...

É inverno. Está frio. E por frio, entenda temperaturas que descem por vezes abaixo dos 0 °C. Sim, sim, mesmo no Sul. O que nos traz um estranho fenómeno físico: a água torna-se sólida. A isso chama-se vulgarmente gelo. Surpreendentemente, o inverno regressa todos os anos, apesar das repetidas tentativas do Homem para aquecer o […]

A sua roseira de flores vermelhas começa a florescer a branco ou a rosa e pensa que está a degenerar? Vamos investigar juntos para resolver este mistério e encontrar a origem deste estranho fenómeno! Com um pouco de observação, veremos que se trata afinal de uma questão de porta-enxerto, de « ladrões » e que uma simples poda deverá resolver o problema.

Porquê estas flores estranhas?
Que tipos de roseiras degeneram?

Apenas as roseiras enxertadas são afetadas pela degenerescência!

Com efeito, enxerta-se, quando necessário, uma variedade de roseira conhecida e apreciada pelas suas flores (é o garfo de enxerto) sobre uma roseira botânica, apreciada pelo seu vigor, pela sua resistência às doenças ou pela sua adaptação ao solo (é o porta-enxerto). Os rosicultores que multiplicam estas roseiras utilizam diferentes porta-enxertos: Rosa multiflora, Rosa laxa e Rosa canina são os mais utilizados. São as flores da roseira brava do porta-enxerto, brancas ou ligeiramente rosadas, que está a confundir com uma degenerescência.

roseira enxertada

Como identificar esta parte degenerada?

Na base da sua roseira, um pouco acima do solo se não tiver sido enterrada, encontra-se o ponto de enxerto, que se assemelha a um calo formado no caule. Foi daqui que partiram os primeiros ramos da sua roseira de belas flores vermelhas! Mas, entretanto, não a viu crescer todos os dias e, para a castigar, a matreira acabou por produzir rebentos abaixo do ponto de enxerto...

Chamam-se « ladrões » porque consomem muita seiva, que vão buscar diretamente à fonte, nas raízes. São, portanto, os rebentos do porta-enxerto selvagem que se desenvolveram, e com grande vigor! Poderá observar que a cor dos caules é diferente da da sua variedade de roseira preferida, geralmente de um verde mais claro. O mesmo se passa com as folhas, e nem vale a pena falar nas flores...

O aparecimento destes ladrões é favorecido por uma cava profunda que, ao ferir as raízes do porta-enxerto, o estimula a ativar os seus gomos dormente. Por isso, é preferível não remexer demasiado o solo em redor das roseiras e contentar-se com sachas superficiais.

ladrão na roseira

Atenção: no caso de uma roseira enxertada, fala-se de "ladrão" e não de "rebento"! Com efeito, este último resulta de um fenómeno natural que não enfraquece a planta. Uma roseira pode criar rebentos, claro, mas nesse caso não era enxertada, a menos que tenha enterrado o porta-enxerto e a roseira se tenha libertado dele.

Como recuperar a minha bela roseira transformada em roseira brava?

Para eliminar este fenómeno, basta cortar rente os rebentos aéreos deste porta-enxerto selvagem, até ao calo do ponto de enxerto, ou desenterrar e arrancar pela base o ladrão que cresceu numa raiz principal, para evitar que reapareça. Se se limitar a cortá-lo, o ladrão vai fortalecer-se e acabará por sufocar a variedade.

Não esqueçamos o caso particular da roseira em tronco ou chorona, na qual também podem surgir ladrões ao longo do caule principal, abaixo do ponto de enxerto, que se encontra em altura. Será necessário, naturalmente, eliminá-los.

Se restarem ramos sãos da boa variedade acima do porta-enxerto, a sua roseira acabará por recuperar. Convém manter-se vigilante e verificar que nenhum ladrão aparece. Aproveite os períodos de poda, de monda ou de colheita de flores de corte para observar tudo isso. Com um pouco de prática, aprenderá rapidamente a identificar os ladrões e nada lhe escapará!

A sua roseira de flores vermelhas começa a florescer a branco ou a rosa e pensa que está a degenerar? Vamos investigar juntos para resolver este mistério e encontrar a origem deste estranho fenómeno! Com um pouco de observação, veremos que se trata afinal de uma questão de porta-enxerto, de « ladrões » e que uma simples […]

A força de ir alargando cada vez mais os canteiros, as zonas relvadas foram-se reduzindo de ano para ano. O tempo de corte foi dividido por três, o que é uma alegria para o meu marido, a quem cabe esta tarefa. Dito isto, mesmo que a superfície de relva seja agora bastante modesta, sonho com um corta-relva manual. E acessoriamente, sonho que toda a minha aldeia adote o corta-relva de mão e a boa e velha gadanha ao mesmo tempo... Sem barulho, sem cheiros... sim, eu sei, sempre se pode sonhar! Aqui ficam as minhas 5 excelentes razões para adotar um corta-relva mecânico.

O corta-relva manual é económico

Vou partilhar algo de sensacional: o corta-relva manual é económico! Incrível, não é? Mais a sério, o facto de não consumir energia fóssil não renovável nem eletricidade é uma vantagem que pesa muito na minha balança. Como qualquer equipamento de jardim, o corta-relva de mão exige um investimento inicial, mas em modelos de gama equivalente, fica mais barato do que um corta-relva motorizado. O que vejo pessoalmente são as poupanças inegáveis a longo prazo e uma total independência em relação ao petróleo. A única energia gasta é a da tablete de chocolate negro com casca de laranja ingerida algum tempo antes. É preciso arranjar forças!

Além disso, o custo de manutenção é negligenciável e a sua vida útil é mais longa do que a dos outros corta-relvas.

corta-relva de mão
Corta-relva manual com sistema helicoidal

Os novos corta-relvas manuais são leves e manejáveis

Continua a ser uma ferramenta prática, leve e de fácil manuseamento, sem fazer concessões ao nível do desempenho. Não é preciso deslocar um ombro para a arrancar, nem fio ou extensão para a alimentar! O corte é igualmente de qualidade. Tudo isto graças ao seu sistema helicoidal, um cilindro equipado com lâminas que arrastam os fios de erva para os seccionar de forma limpa em vez de os esmagar. Aliás, os ingleses perceberam muito bem as vantagens deste dispositivo e, caso se coloque a questão, o famoso corta-relva inglês é um corta-relva helicoidal (ainda que, consoante os modelos, possam ser manuais, a gasolina ou elétricos)! De nada, é de borla! Saiba também que quanto mais regular for a tosa, mais estético será o resultado.

Acrescente-se ainda que ocupa pouco espaço e cabe facilmente num cantinho da garagem ou da casinha de jardim.

O corta-relva manual é ecológico

Sem gasolina, sem poluição e sem maus cheiros, está dito! Como referi anteriormente, a única energia utilizada é a energia humana. O corta-relva manual não recorre a energias fósseis nem elétricas. Por outro lado, sem combustível significa sem emissões poluentes e, portanto, sem impacto negativo sobre o equilíbrio da natureza e, consequentemente, sobre a saúde humana. Certo, o consumo de um único corta-relva pode parecer negligenciável. Mas pense nisso à escala planetária... de que arrepiar!

O corta-relva manual requer pouca manutenção

Com efeito, há apenas duas coisas a fazer para o manter:

  • passar um jato de água (eventualmente uma escova macia) sobre o cilindro, no mínimo a cada 4 a 5 cortes;
  • lubrificar a corrente de transmissão de vez em quando, tal como numa bicicleta, e pronto.

Esqueça a muda de óleo do motor, a gasolina ou a substituição das velas. O sistema é tão simplificado que o mecanismo é uma brincadeira de criança para substituir ou reparar. Quanto à afiação, também não há preocupações, pois é feita automaticamente. Explicando melhor: as lâminas afia-se naturalmente de cada vez que rodam e se desgastam sobre a contra-lâmina. Basta efetuar um pequeno ajuste se necessário, apertando a contra-lâmina na direção da hélice.

corta-relva
Há dias assim... com um corta-relva manual, acabaram-se os problemas!

O corta-relva manual é silencioso

Guardei o melhor para o fim. Como não tem motor, o corta-relva manual é silencioso, acabou a poluição sonora, que felicidade! É assim possível cortar a relva de manhã cedo, ao final da tarde, ao domingo, nos feriados, em plena noite à luz da lua ou com uma lanterna frontal. Neste último caso, os vizinhos podem olhar de forma um pouco diferente, mas isso é um pormenor, não é verdade?

Não consigo deixar de pensar também na fauna do jardim. Com efeito, o barulho dos nossos equipamentos motorizados perturba o mundo vivo na sua globalidade. Foi demonstrado que a poluição sonora interfere na comunicação das aves ou mesmo na polinização, por exemplo.

Em conclusão, o corta-relva manual é, na minha opinião, uma excelente alternativa nos jardins pequenos. É económico, respeitador do ambiente e duradouro, sem comprometer a eficácia, desde que se respeitem as condições de utilização, claro.

A força de ir alargando cada vez mais os canteiros, as zonas relvadas foram-se reduzindo de ano para ano. O tempo de corte foi dividido por três, o que é uma alegria para o meu marido, a quem cabe esta tarefa. Dito isto, mesmo que a superfície de relva seja agora bastante modesta, sonho com […]

As ervas-das-bruxinhas... Detestamo-las, martyrizamo-las, fazemos-lhes a vida negra! Quantos jardineiros lhes querem cortar a raiz (literalmente...) porque não "ficam bem" no seu belo relvado?

E no entanto, se soubesse até que ponto esta flor é importante para a fauna dos nossos jardins! E não só... Digo-lhe já: esta simpática representante da família das Asteráceas, que atende pelo doce nome de Taraxacum officinale, não merece claramente que se insista tanto em combatê-la. Eis as razões... 

As ervas-das-bruxinhas são úteis aos insetos

As ervas-das-bruxinhas são plantas hospedeiras de certas mariposas, como a Esfinge da erva-das-bruxinhas, por exemplo, mas também de pequenos coleópteros: certos meligetes (um género muito vasto cuja identificação precisa é penosa...). Como acontece com outras plantas silvestres, a erradicação sistemática das ervas-das-bruxinhas no jardim reduzirá consideravelmente as populações dos insetos que delas dependem, nomeadamente estas mariposas.

Mas não é tudo! É também uma das flores mais nectaríferas e melíferas da nossa flora. E como floresce de maio a outubro, tem tempo de alimentar uma enorme variedade de insetos diferentes: borboletas diurnas, coleópteros, cigarrinhas, sirfídeos, abelhas e abelhões silvestres... 

Sabia que? Nem todas as Asteráceas de flores amarelas são ervas-das-bruxinhas. A identificação destas plantas pode revelar-se um verdadeiro quebra-cabeças. Na dúvida, deixe crescer tudo!

As ervas-das-bruxinhas alimentam as aves e outros pequenos animais também 

Esqueçamos por um momento os insetos e concentremo-nos nos outros habitantes do jardim!

Certas aves granívoras, como o pintassilgo, apreciam petiscar algumas sementes, as flores e até as folhas das ervas-das-bruxinhas. Os gansos e as galinhas também adoram as folhas desta planta. Não hesite, por isso, em dá-las a esses animais! 

Alguns micromamíferos como o musaranho ou o rato-dos-campos são muito apreciadores das flores das ervas-das-bruxinhas. 

Não nos podemos esquecer dos predadores insetívoros que gravitam em torno desta verdadeira despensa: aves, mamíferos, insetos predadores, aranhas e até... morcegos durante a noite. 

Tudo se come na erva-das-bruxinhas!

A erva-das-bruxinhas é uma hortaliça antiga que contém vitamina C, β-caroteno, ferro e potássio. Existem mesmo variedades de erva-das-bruxinhas "melhoradas" que podem ser cultivadas na horta.

As folhas consomem-se em salada, os botões florais podem ser consumidos como as alcaparras. E durante os tempos de guerra, chegou a criar-se um sucedâneo de café com raízes de erva-das-bruxinhas.

As flores também são comestíveis e degustam-se quando estão bem adocicadas... O único risco: ficar com o bigode cheio de pólen e ter de suportar o olhar estranho do vizinho! Por fim, colhem-se também as pétalas para fazer a famosa cramaillotte (compota de erva-das-bruxinhas) ou vinho de erva-das-bruxinhas... O mel de erva-das-bruxinhas é também uma iguaria!

Nota: tenha, no entanto, cuidado para não as colher nos prados de pastagem. As folhas consumidas cruas podem transmitir a fascíola hepática. Como a erva-das-bruxinhas concentra os poluentes, evite também colhê-la em terrenos poluídos. 

O Taraxacum officinale, a erva-das-bruxinhas, é uma planta medicinal como o seu nome indica. É diurética e depurativa e possui virtudes antioxidantes

Sabia que? Alguns apreciam tanto as ervas-das-bruxinhas (o género Taraxacum) que fazem coleção delas, como outros colecionariam cornisos, roseiras ou campainhas-brancas! Quanto a mim, quase cedi à tentação de comprar uma belíssima Taraxacum pseudoroseum de flores amarelo-rosadas, num especialista em plantas silvestres...

A erva-das-bruxinhas, uma planta bioindicadora

Sabia que uma proliferação de ervas-das-bruxinhas num determinado local indica uma grande riqueza do solo, nomeadamente em azoto? A presença maciça destas flores revela também uma terra demasiado compactada, chegando mesmo a estar asfixiada. Certo é que são os terrenos pobres que possuem a maior diversidade botânica e, por conseguinte, a maior diversidade faunística... mas isso não é razão para exterminar estas pobres ervas-das-bruxinhas!

Combater as ervas-das-bruxinhas: uma empresa vã...

Insistir em arrancar as ervas-das-bruxinhas é não só lutar contra moinhos de vento com uma simples lança, mas sobretudo desferir mais um ataque contra a biodiversidade e o equilíbrio da natureza. Para além de servirem de alimento a toda uma fauna, as ervas-das-bruxinhas são também capazes de fixar contaminantes do solo, como certos metais pesados (chumbo, cádmio...). Comestível e medicinal, a erva-das-bruxinhas é uma das primeiras flores a alimentar as abelhas domésticas e silvestres, cujas populações já sofrem bastante. Percebe-se, portanto, que todas estas qualidades bem valem deixar duas ou três "manchas" amarelas no relvado.

As ervas-das-bruxinhas… Detestamo-las, martyrizamo-las, fazemos-lhes a vida negra! Quantos jardineiros lhes querem cortar a raiz (literalmente…) porque não “ficam bem” no seu belo relvado? E no entanto, se soubesse até que ponto esta flor é importante para a fauna dos nossos jardins! E não só… Digo-lhe já: esta simpática representante da família das Asteráceas, que […]

"J'fais pipi sur l'gazon, pour arroser les coccinelles..." Conhece a canção? Pois bem, ela está a voltar à moda e fala-se cada vez mais da utilização da urina no jardim. Ou, para ser mais preciso, volta a falar-se dela, pois urinar no jardim para fazer crescer as plantas (ou simplesmente pelo prazer!) era uma prática comum antigamente, nas nossas zonas rurais.

Mas será que é realmente eficaz? A urina humana pode substituir os nossos fertilizantes habituais? Regar com urina é uma panaceia? Não traz doenças? Vamos verificar tudo isso!

A urina como adubo: um concentrado de azoto

A urina humana é naturalmente rica em azoto. Pode aliás servir para corrigir uma carência de azoto. Para ser preciso, a urina contém ureia que se transforma por redução em gás amoniacal NH3 (é o cheiro!). Este último pode, consoante a temperatura e a biologia do solo, reduzir-se novamente em amônio NH4+, o que é positivo; ou oxidar-se em nitrato NO3-, o que é menos positivo... Mas estes dois compostos químicos podem ser diretamente assimilados pelas raízes das plantas. Fazem parte do que se designa por ciclo do azoto. 

A urina contém também fósforo, potássio, enxofre, magnésio e vários outros oligoelementos.

A composição varia consoante a alimentação da pessoa: o teor em azoto oscila entre 3 e 6 g/litro, enquanto para o fósforo e o potássio ronda os 1 g/litro em média.

Tudo isso faz da urina um adubo equilibrado e diretamente assimilável pelas plantas.

Mas, como em tudo, é preciso utilizá-la corretamente!

urinar no jardim

A urina na horta

Num solo bem melhorado de base (com composto ou estrume), a utilização de fertilizante líquido não é realmente necessária. Mas como complemento, a urina pode ser utilizada diluída na proporção de 100 ml por 1 litro de água, de duas em duas semanas e durante a fase de crescimento das plantas

Atenção, portanto, a não aplicar este "adubo" em sementeiras ou plantas demasiado jovens. Estas irão então produzir caules e folhagem em detrimento do sistema radicular, causando problemas mais tarde. Estas plantas terão dificuldade em absorver a água e os nutrientes, e serão menos resistentes. 

A urina no composto

A urina no composto acelera a decomposição das matérias orgânicas.

Em doses elevadas, no entanto, a urina é tóxica para as minhocas, os vermes do composto e os outros organismos vivos do solo. Pense portanto em utilizar a urina com parcimónia ou em diluí-la na proporção de 250 ml de urina por um litro de água, no mínimo. 

A urina nas outras partes do jardim 

A urina é um adubo azotado potente. Um excesso em determinados pontos do jardim vai favorecer a proliferação de plantas ditas nitrófilas: a urtiga e a corriola em primeiro lugar. Em casos extremos pode mesmo "queimar as suas plantas". Cuidado, portanto...

Se se tiver o cuidado de realizar uma adubação na plantação e de manter um solo vivo e saudável, um adubo azotado raramente é necessário para as plantas ornamentais: árvores, arbustos e mesmo plantas perenes. 

Em vaso ou em floreira, pelo contrário, pode ser uma boa solução em substituição dos fertilizantes líquidos habituais. Também aqui tenha em mente diluir a urina: 50 a 100 ml de urina por litro de água. E aplicar a sua mistura (ou micção...) apenas uma vez de duas em duas semanas

manneken pis

A urina? Que nojo?

É sobretudo no ocidente que mantemos reticências em utilizar as excreções humanas e animais. A urina é frequentemente utilizada em África, na Ásia e na América do Sul. E numerosas investigações agronómicas estão em curso para quantificar o impacto real desta prática: por agora os resultados são mais do que encorajadores.

A urina cheira mal! 

A urina, mesmo diluída, apresenta um odor desagradável durante a sua degradação. Um armazenamento durante uma semana resolve este problema. Num solo saudável e equilibrado, a degradação da urina far-se-á muito rapidamente, o que limitará no tempo este odor desagradável

A urina não é higiénica! 

A urina é naturalmente estéril numa pessoa saudável. No entanto, deve evitar-se utilizar na horta a urina de uma pessoa com uma infeção bacteriana: note-se que um armazenamento relativamente longo (pelo menos um mês) permite eliminar os eventuais agentes patogénicos. E a contrario, evite também utilizar urina de uma pessoa sob medicação, sobretudo sob antibióticos.

Nota: importa também referir que a urina pode provocar uma salinidade excessiva nos solos sensíveis

Conclusão 

Se se ultrapassar o bloqueio da repulsa em utilizar as nossas próprias excreções, a urina pode revelar-se um fertilizante eficaz. Tenha no entanto presente que não deve utilizá-la pura, nem com demasiada frequência e apenas quando necessário. Em suma, as precauções de uso de um verdadeiro adubo! O ideal é também armazenar previamente a urina para eliminar os agentes patogénicos e reduzir consideravelmente o odor.

“J’fais pipi sur l’gazon, pour arroser les coccinelles…” Conhece a canção? Pois bem, ela está a voltar à moda e fala-se cada vez mais da utilização da urina no jardim. Ou, para ser mais preciso, volta a falar-se dela, pois urinar no jardim para fazer crescer as plantas (ou simplesmente pelo prazer!) era uma prática […]

Plantar árvores para combater o aquecimento global pode parecer uma solução muito simples. Ainda bem, porque é mesmo!

Numa época em que se abate mais do que se planta, todas as árvores que conseguir plantar no seu jardim revelar-se-ão benéficas por várias razões. 

Uma das causas do aquecimento global é a emissão excessiva de dióxido de carbono (CO₂), pelo que a solução mais evidente será plantar árvores, uma vez que absorvem esse CO₂. 

Porquê plantar árvores? 

Os vegetais em geral, mas as árvores em particular, têm uma capacidade de absorção de CO₂ extraordinária. É um resultado simples da fotossíntese. A árvore absorve o CO₂ do ar e transforma-o em carbono e oxigénio. O oxigénio é libertado para o ar, para nosso grande benefício, enquanto o carbono é armazenado e libertado progressivamente. As florestas representam assim o segundo reservatório de carbono a seguir aos oceanos. 

Mas não é só isso: as árvores são também úteis na:

  • regulação da temperatura e da higrometria: são verdadeiros climatizadores vivos;
  • filtragem do vento e das poeiras, melhorando assim a qualidade do ar; 
  • fixação de certos poluentes como pesticidas ou metais pesados; 
  • melhoria do solo, trazendo-lhe biomassa (madeira, folhas...) e combatendo a erosão. 
alterações climáticas - plantar árvores

Que árvores plantar para combater o aquecimento global? 

1) Árvores autóctones, antes de mais

Há duas grandes vantagens em plantar espécies autóctones: 

  • estão perfeitamente adaptadas ao clima e ao solo
  • alimentam e fornecem abrigo à fauna local

A lista de árvores autóctones é longa, mas eis alguns exemplos:

  • Para o Norte: Bordo-da-noruega, Amieiro, Bétula-pubescente, Carpa, Cerejeira-cornalina, Freixo-europeu, Azevinho, Choupo-tremedor, Ulmeiro...
  • Para o Sul: Medronheiro, Zêlha, Amieiro-italiano, Castanheiro, Oliveira, Azinheira... 
  • Para a montanha: Ostria, Ulmeiro-de-montanha, Pinheiro-das-montanhas... 
  • Para o Litoral: Tamargueira-de-França, Espinheiro-marítimo, Oliveira-da-Rússia, Pinheiro-bravo, Bordo-comum... 
alterações climáticas - plantar árvores
Alguns exemplos de árvores autóctones: Pinheiro, Espinheiro-marítimo, Medronheiro e Bordo-da-noruega

2) Autóctones, sim, mas não só... 

Algumas espécies autóctones sofrem com as alterações climáticas, enquanto outras mais exóticas ou originárias do Sul parecem ganhar terreno no Norte. Assim, os pinheiros, independentemente da espécie, sofrem com os ataques repetidos das lagartas da processionária do pinheiro. Já a faia, as píceas e mesmo o abeto pectinado já não suportam os nossos verões demasiado quentes e secos. Todas estas árvores tornaram-se também menos resistentes às doenças. 

Em contrapartida, algumas árvores veem a sua área de distribuição original deslocar-se. Nada de surpreendente: sempre foi assim! As plantas crescem onde melhor se adaptam. É por isso que existem problemas com certas plantas exóticas invasoras que acabam por se revelar mais adaptadas do que as autóctones em certos meios naturais. Ou o facto de as florestas de carvalhos estarem a recuperar terreno face às florestas de faias, tal como acontecia... há apenas dois mil anos. 

Alguns exemplos de árvores que se adaptaram às alterações climáticas

  • A Azinheira - Quercus ilex: outrora confinada ao clima mediterrânico, tem tendência para subir mais a norte. Hoje em dia vive muito bem no litoral atlântico até à Bretanha e continuará a progredir em direção ao centro. 
  • O Carvalho-da-Turquia - Quercus cerris: anteriormente presente apenas no sudeste do país, está agora a deslocar-se claramente para norte, chegando mesmo a ser encontrado até à Bélgica... 
  • O Carvalho pubescente - Quercus pubescens: uma espécie particularmente adaptada à seca, que tem dado cartas nos últimos anos. 
  • A Zêlha - Acer monspessulanum: frequentemente associada na natureza à azinheira, segue a mesma tendência, progredindo até à Vendeia. 
  • O Freixo-do-maná - Fraxinus ornus: primo do freixo-europeu mas bem menos sensível à calariose, vai abandonando a Córsega e os Alpes Marítimos para subir mais a norte. 
  • O Saboeiro - Koelreuteria paniculata: originário da China e da Coreia, esta árvore revela-se perfeitamente resistente à seca e à poluição urbana.
  • O Pinheiro-bravo - Pinus pinaster: presente inicialmente no litoral mediterrânico e atlântico, prossegue a sua expansão em direção ao Oeste e ao Norte.
  • A Acácia-bastarda - Robinia pseudoacacia: esta árvore exótica está a tornar-se, aos poucos, a "rainha da floresta". Resiste ao calor, à seca, às inundações e adapta-se a solos pobres, pois tem a capacidade de fixar o azoto. Vai assim ocupando progressivamente o lugar das outras espécies arbóreas. 

Para informação: o Serviço Nacional de Florestas está neste momento a realizar ensaios de plantação de Abeto de Bornmüller (Abies bornmuelleriana) em floresta, uma espécie mais adaptada à seca do que o abeto pectinado. Enquanto isso, na Bélgica, estão a ser realizados ensaios em floresta com carvalhos-da-Turquia e carvalhos pubescentes e mesmo... pinheiros da Córsega. 

alterações climáticas - plantar árvores
Alguns exemplos de árvores que se adaptaram às alterações climáticas: a Azinheira, o Saboeiro, o Freixo-do-maná, a Zêlha e a Acácia-bastarda

Características gerais das árvores resistentes às alterações climáticas 

As árvores com resistência natural à seca e às temperaturas elevadas no verão apresentam frequentemente características comuns: 

  • Folhas pequenas e numerosas: quanto maior a folha, mais água se evapora. As folhas pequenas são, portanto, o resultado de uma adaptação à seca;
  • Uma folhagem cerosa e/ou aveludada: se a folha for espessa ou coberta de pequenos pelos, reterá a água de forma mais eficaz;
  • Convém também verificar a região de origem da árvore: se for originária da taiga escandinava, há fortes probabilidades de sofrer no verão... A contrario, as espécies mediterrânicas e do centro da Europa serão particularmente adaptadas.  

Em conclusão 

Face às alterações climáticas que se têm acelerado nas últimas décadas, será necessário rever as nossas escolhas relativamente às espécies autóctones adaptadas a cada região. Algumas, cuja sobrevivência depende de humidade e de estações marcadas, vão desaparecer em favor de espécies menos exigentes em água e que não necessitam de invernos rigorosos. De qualquer forma, a plantação de árvores será sempre benéfica, desde que se escolham espécies sem problemas de adaptação e capazes de prosperar de forma otimizada sem demasiados cuidados. Portanto, em conclusão: plantemos árvores! 

Para saber mais 

Alguns investigadores têm dúvidas sobre a eficácia da plantação de árvores para combater o aquecimento global. Na realidade, o que questionam é sobretudo o facto de o CO₂ ser o único responsável pelo aquecimento, bem como a necessidade (segundo eles) de mais superfícies agrícolas para alimentar a população. O ideal seria também, e sobretudo, parar a desflorestação em vez de plantar algumas árvores aqui e ali. Se quiser saber mais e formar a sua própria opinião sobre o assunto, leia este artigo: As florestas: solução para a crise climática?

E se ainda não viu, conheça os principais resultados do nosso inquérito sobre as alterações climáticas e a jardinagem

Plantar árvores para combater o aquecimento global pode parecer uma solução muito simples. Ainda bem, porque é mesmo! Numa época em que se abate mais do que se planta, todas as árvores que conseguir plantar no seu jardim revelar-se-ão benéficas por várias razões.  Uma das causas do aquecimento global é a emissão excessiva de dióxido […]

Todos os anos, no outono, muitas árvores e arbustos vestem as suas mais belas cores, oferecendo-nos um verdadeiro espetáculo: as suas folhas ganham tons escarlates, acobreados ou dourados, antes de cair... Apesar de nos maravilhar, este fenómeno resulta de uma verdadeira estratégia desenvolvida pelas plantas para se protegerem no inverno. Entram em repouso e fazem assim uma pausa necessária, que lhes permite retomar com mais vigor na primavera. Convidamos aqui a descobrir este mecanismo que explica as tonalidades flamejantes do outono!

Pode também descobrir este artigo no nosso podcast:

As folhas de outono do liquidâmbar, ou Copalme d'Amérique

O Liquidambar styraciflua é uma das mais belas árvores de folhagem outonal! (foto Frank Vincentz)

De onde vem a cor verde das folhas?

A folha permite à árvore captar a luz solar. Na primavera e no verão, as folhas são verdes porque contêm clorofila. Trata-se de um pigmento que permite à planta captar a energia luminosa e utilizá-la para sintetizar moléculas orgânicas a partir da água (retirada do solo) e do CO2 (retirado da atmosfera). Graças à clorofila, as folhas absorvem, a partir da luz, os comprimentos de onda azuis e vermelhos, mas não os verdes... A cor verde é, portanto, refletida pela folha, razão pela qual a percebemos. Outros pigmentos estão presentes na folha, mas são mascarados pela clorofila.

Porque é que a tonalidade muda no outono?

Quando a duração do dia diminui, a árvore procura entrar em repouso e poupar energia. Vai então bloquear a alimentação das folhas em seiva, produzindo na base destas um pequeno rolhão de cortiça. Assim, as folhas deixam de receber água e elementos minerais, os pigmentos clorofílicos deixam de ser renovados e acabam por desaparecer... Como eram responsáveis pela cor verde das folhas, estas mudam então de cor. No entanto, os outros pigmentos presentes nas folhas continuam lá — xantófilas (amarelo) e carotenos (laranja) — com o desaparecimento da clorofila, tornam-se visíveis, e é isso que confere às folhas magníficos tons alaranjados!

As cores vermelhas, por sua vez, devem-se a novos pigmentos que são sintetizados no outono, a partir dos açúcares presentes na folha: as antocianinas (responsáveis pelas cores vermelho escuro, violeta e púrpura). Simultaneamente, permitem proteger as folhas da radiação solar e, ao mesmo tempo, evitar que insetos e outros animais ataquem a planta: a cor vermelha repele-os, pois na natureza esta tonalidade sinaliza toxicidade.

No outono, nem todas as árvores adquirem a mesma cor; vários fatores fazem variar a tonalidade da folhagem: o pH do solo, a humidade e a seca, a genética (a tonalidade difere conforme as espécies e variedades), a idade da planta... Cada tonalidade depende das proporções específicas de cada pigmento, e da forma como se exprimem!

Na América do Norte e na Ásia, as cores vermelhas (devidas às antocianinas) são particularmente marcadas, ao passo que na Europa as folhas outonais são mais frequentemente amarelas ou alaranjadas.

As cores das folhas de outono

Evónimo (foto Jean Jones), sanguinho, ginkgo, liquidâmbar e bordo do Japão

As folhas acabam por cair...

Deixando de ser alimentadas pela seiva, as folhas secam, ficam castanhas e acabam por cair. É uma forma de a árvore poupar energia e entrar em repouso, à espera de temperaturas mais amenas. O seu metabolismo funciona em modo lento, preservando a sua água e os seus elementos minerais. As folhas são tecidos finos e delicados — com o frio, correriam o risco de gelar e cair de qualquer forma... pelo que não há qualquer vantagem para a árvore em procurar conservá-las! As plantas perenes, por sua vez, têm geralmente folhas mais espessas e resistentes, capazes de suportar temperaturas frias. Continuam a fazer fotossíntese no inverno, mas o seu metabolismo também abranda.

Ao cair, as folhas das árvores caducifólias têm a vantagem de fornecer ao solo matéria orgânica. Protegem o solo, favorecem os insetos e micro-organismos e, ao decomporem-se, enriquecem e melhoram a textura do solo, permitindo a formação de húmus. Enquanto o solo se cobre de um tapete colorido, a queda das folhas permite-nos admirar toda a arquitetura da árvore! Valoriza a cor e a textura da sua casca, bem como a sua ramagem.

Na primavera, com o aumento da duração do dia, as raízes voltam a extrair do solo a água e os elementos minerais, que podem então circular na seiva da árvore. Esta "subida da seiva" permitirá o abrolhamento dos gomos e o aparecimento de novas folhas... possibilitando a fotossíntese até ao outono seguinte!

Todos os anos, no outono, muitas árvores e arbustos vestem as suas mais belas cores, oferecendo-nos um verdadeiro espetáculo: as suas folhas ganham tons escarlates, acobreados ou dourados, antes de cair… Apesar de nos maravilhar, este fenómeno resulta de uma verdadeira estratégia desenvolvida pelas plantas para se protegerem no inverno. Entram em repouso e fazem […]

Talvez já tenha reparado neste verão, mas com os dias quentes, os naturalistas fizeram um pequeno regresso, sobretudo nas redes sociais... E, como todos os anos, uma certa categoria de entre eles levantou a voz contra uma planta exótica. Este ano, é a budleia, chamada «arbusto-das-borboletas», que é particularmente alvo da sua fúria. Invasiva? Perigosa para as borboletas?

O debate é simples, clássico, mas eficaz:

« Vocês não são mais do que uns vilões que matam a natureza! » (os botânicos aos horticultores)
« Nem pense nisso! » (os horticultores aos botânicos)

Bem-vindo ao recreio! E aqui estou eu, bem no meio, a tentar acalmar as tropas dos dois lados.

O debate sobre o arbusto-das-borboletas, em pormenor

Ouvem-se, leem-se e veem-se cada vez mais artigos, publicações no Facebook ou reportagens televisivas cujo tema é: « As budleias matam as borboletas, porque o néctar contém cafeína. » Estas publicações têm, em geral, todas a mesma particularidade: tratam a informação de forma superficial e não aprofundam as coisas, sem citar, evidentemente, qualquer fonte…

No estado atual dos nossos conhecimentos, parece que o néctar das flores de budleia conteria uma substância próxima da cafeína que atrairia irremediavelmente as borboletas, que poderiam acabar por se esgotar e, por fim, morrer.

Tive o cuidado de escrever esta frase no condicional. Com efeito, há quase vinte anos que ouço tudo sobre esta planta. A maioria dos factos (que apresentarei mais abaixo) está comprovada, enquanto um ponto permanece eternamente sujeito a debate: essa famosa toxicidade das flores que tem como impacto «drogar» as borboletas.

Curiosamente, quando se fala desta eventual toxicidade das flores da budleia, ninguém menciona qualquer publicação científica séria. Note-se como isto é irónico…

buddleja, arbusto-das-borboletas

Os factos cientificamente comprovados 

  • O Buddleia davidii, a espécie-tipo, é uma planta invasiva, uma EEE — Espécie Exógena Envahissante Invasora. Vai sê-lo preferencialmente em locais perturbados pelo Homem, pois trata-se de um arbusto que aprecia solos pobres, pedregosos e ligeiramente revolvidos (é originário das montanhas áridas da China): escombreiras, bordos de linhas de caminho de ferro, terrenos industriais incultos, antigos parques de estacionamento abandonados… mas também em meios naturais particularmente vulneráveis, como por exemplo as pastagens silicícolas da Normandia. É algo natural, pois é uma espécie pioneira que «prepara o terreno» para que outras plantas possam instalar-se posteriormente. Na nossa flora indígena existem outras plantas capazes de realizar este tipo de trabalho, mas a budleia é de uma eficácia formidável, uma vez que vive muito pouco tempo: daí o seu caráter invasivo. Assim que outras plantas comecem a crescer no substrato criado pela budleia ao longo do tempo, vão fazer-lhe sombra e a budleia, essência de luz antes de tudo, desaparecerá. A vegetação poderá então desenvolver-se até ao climax, a evolução última de um meio natural: uma floresta de carvalhos, por exemplo. O único senão é que a budleia ocupa efetivamente o lugar de uma planta indígena útil para a fauna, nomeadamente para os insetos que, na sua maioria, co-evoluíram com as espécies endémicas. Recorde-se que uma planta exótica é sempre menos interessante para alimentar as larvas e os adultos dos insetos.

Nota bene: se tiver em casa a espécie-tipo e o seu caráter invasivo o preocupa, pode e mão na obra: corte o arbusto energicamente logo antes da formação das sementes! O problema fica resolvido.

  • A budleia contém aucubina e outros terpenoides tóxicos por ingestão nas suas folhas e ramos. É por isso que ninguém consome as folhas. Este é o segundo argumento avançado pelos naturalistas: «Se as borboletas porem ovos na budleia, as lagartas não conseguirão alimentar-se.» Na realidade, isto seria desconhecer profundamente os lepidópteros e sobretudo negar milhões de anos de evolução. Uma borboleta está geneticamente programada para pôr ovos apenas na planta ou na família de plantas de que a sua descendência necessita. E não noutras! No entanto, é verdade que se no seu jardim tiver apenas um relvado cortado rente, uma sebe de tuias e… uma única budleia: as borboletas não conseguirão pôr ovos. Portanto, terá borboletas no primeiro ano no seu arbusto e depois… nenhuma. Num jardim com uma maior diversidade de vegetais, as borboletas visitam rapidamente as flores da budleia e depois vão pôr ovos nas plantas vizinhas consoante a espécie de borboleta: urtiga, silva, gramíneas, frângula, Fabáceas, Brassicáceas, Apiáceas…
buddleja, arbusto-das-borboletas

Nota bene: algumas fontes referem que a lagarta da Esfinge-da-Caveira, bem como a da Cuculia do verbasco, se teriam adaptado para se alimentar de folhas de budleia na falta das suas verdadeiras plantas hospedeiras. "A natureza encontra sempre o seu caminho..."

  • O néctar do Buddleia davidii, embora produzido em grande quantidade, é pobre em açúcar comparativamente a outras flores. É, portanto, menos nutritivo para os insetos. Note-se que apenas os lepidópteros que possuem uma tromba conseguem alimentar-se deste néctar. Alguns abelhões conseguem cortar a corola para extrair parte dele. É também possível observar ocasionalmente alguns sirfídeos e até uma ou duas abelhas selvagens nas flores, mas é mais raro.
  • A grande maioria das variedades de Buddleia davidii vendidas no comércio são estéreis, ao contrário do que parece pensar a opinião pública. É portanto inútil censurar o colaborador que arruma as paletes no centro de jardim da sua zona por venderem budleias. Apenas a espécie-tipo é invasiva e já não está à venda.
  • As outras espécies e híbridos de budleia não levantam qualquer problema: B. globosa, B. alternifolia, B. nivea…

Por que planta substituir a budleia?

Se quiser agir pelo princípio da precaução e evitar plantar um «arbusto-das-borboletas», faça-o! Mas substitua-o por plantas indígenas ou semi-indígenas (Europa de Leste), deixando áreas selvagens no seu jardim onde intervém muito pouco. Para fazer as coisas verdadeiramente a fundo e tentar salvar o que resta de borboletas, evitando assim cair na hipocrisia geral. O grande clássico são os dadores de lições de fim de semana que o vão repreender porque tem uma planta chinesa no jardim, mas que comem tomates no inverno, andam num 4×4 a gasóleo e apanham o avião quatro vezes por ano. Em suma, são muitas vezes grandes faladores… Deixemo-los falar e sigamos em frente!

buddleja arbusto-das-borboletas

Em conclusão

Não estou a atirar pedras aos naturalistas. Longe disso... A sua luta é justa e necessária. Na realidade, se por vezes parecem de má-fé ou mesmo sectários, é antes de tudo por necessidade! Há décadas que ninguém os ouve sobre os temas ambientais. Decidiram portanto adotar uma linguagem mais fácil de compreender para o comum dos mortais, recorrendo a conselhos simples e precisos, aqui no nosso exemplo: «Não plantar mais budleias e arrancar todas as que existem!» Dado o que acontece nos dias de hoje, são obrigados a elevar o tom e paciência, se nessa história as outras budleias ficarem pelo caminho com a primeira…

No entanto, convém receber as informações que circulam sem filtro na internet com muitas reservas e fazer as suas próprias pesquisas. Talvez o néctar seja de facto uma droga. Talvez não... Há anos que esta informação é recorrente, imediatamente desmentida por outra equipa de investigação, e depois não... ou talvez... depende... Em suma, ainda estamos no domínio das especulações. 

Pessoalmente, realizei inventários sobre os lepidópteros diurnos e semi-noturnos (como a Esfinge-do-Moro) durante três anos em minha casa. Pude observar um aumento muito nítido do número de borboletas, bem como uma maior diversidade ao nível das espécies. No entanto, continuo a ter uma budleia. Mas esta está rodeada de vários ares de paraíso para insetos, pois plantei inúmeros vegetais indígenas (ou não) e deixei algumas áreas selvagens. O que prova que este arbusto não parece assim tão nocivo.

No momento em que escrevo estas linhas, vejo apenas um almirante-vermelho no meu «arbusto-das-borboletas», enquanto um funcho selvagem, uma bela superfície de orégão, um Eryngium planum e uma erva-gorda parecem ser «ze plèsse toubi» para os lepidópteros neste momento. 

Encorajo-o, portanto, a aventurar-se também no estudo das borboletas ou dos insetos em geral, a tirar as suas próprias conclusões e a manter sempre um espírito crítico. 

Talvez já tenha reparado neste verão, mas com os dias quentes, os naturalistas fizeram um pequeno regresso, sobretudo nas redes sociais… E, como todos os anos, uma certa categoria de entre eles levantou a voz contra uma planta exótica. Este ano, é a budleia, chamada «arbusto-das-borboletas», que é particularmente alvo da sua fúria. Invasiva? Perigosa […]