Pereiras: por que razão escolher variedades antigas e locais?
Resistência natural, biodiversidade promovida e património preservado
Resumo
A pereira faz parte das árvores fruteiras mais populares. Entre as centenas de variedades existentes, apenas uma minoria é cultivada em França para a produção e venda em lojas convencionais. No entanto, existem muitas peras antigas e locais que mereciam também estar em destaque.
Vejamos por que razão é importante trabalhar para a preservação destas pereiras e quais são as variedades em causa.
Como complemento, para saber tudo sobre o cultivo das pereiras, consulte o nosso guia completo: Pereira: plantar, podar e cuidar.
A origem das pereiras
As pereiras (Pyrus) são árvores fruteiras cuja área de distribuição se estende desde a Eurásia temperada até ao Norte de África. Por sua vez, a pereira (Pyrus communis) teve origem na Ásia Central e começou a ser cultivada na China há mais de 6 000 anos. Só por volta do século VI foi introduzida na Europa. Começou então a ser reproduzida por enxertia, com o objetivo de obter novas variedades. Cerca de 200 variedades diferentes já tinham sido obtidas no Renascimento.
As pereiras pertencem à família das Rosaceae (macieiras, ameixeiras, cerejeiras, roseiras…). Estão entre as fruteiras mais cultivadas em França, devido à sua adaptabilidade à maioria das nossas regiões. A sua floração ocorre em março e abril, seguindo-se a colheita do verão ao outono, consoante as variedades. Algumas conservam-se muito bem, mas os frutos permanecem bastante frágeis, o que exige alguns cuidados no momento da colheita. As formas selvagens de pereira podem atingir 15 metros de altura, enquanto as variedades cultivadas raramente ultrapassam os 5 metros. Ainda existem atualmente variedades autóctones, embora o seu número tenha diminuído bastante com o passar do tempo e devido à intervenção humana. É, por exemplo, o caso na paisagem rural da Bretanha.
Entre as peras mais apreciadas em França, destaca-se em primeiro lugar a ‘Conférence’, com a sua típica forma de gota de água. Tem uma polpa doce, sumarenta e ligeiramente granulosa no centro. Pode ser consumida ao natural ou transformada para ser utilizada em numerosas receitas. É também uma pera que se conserva muito bem. Trata-se de uma variedade obtida em Inglaterra em meados do século XIX.
Outra pera muito difundida: a ‘Williams Bon Chrétien’. É a variedade mais cultivada no mundo. Produz frutos grandes, que se colhem no final do verão. A sua polpa é fina, fundente e doce. É uma variedade originária do Reino Unido, obtida no final do século XVIII.
Se o cultivo de peras se limita a apenas algumas variedades, apesar da grande diversidade existente, é sobretudo por uma questão de produtividade. Privilegiam-se as pereiras mais fáceis de cultivar. Proporcionam uma entrada em frutificação rápida, uma colheita abundante e regular de um ano para o outro, além de uma boa resistência às doenças, nomeadamente à sarna. Os frutos são bonitos, grandes e doces. É também uma questão de gosto: o nosso paladar está habituado a uma textura e a um sabor específicos no que diz respeito às peras, que se procuram reencontrar nas lojas. Enquanto consumidores, não estamos, por exemplo, habituados a peras de polpa dura, constituída por numerosos pequenos grãos, que teriam de amadurecer no feno.

Peras ‘Conférence’
As peras antigas e locais: uma resistência natural
Quando cresce espontaneamente num determinado território, uma planta terá necessariamente de se adaptar às condições de cultivo. Isso inclui o tipo de solo, o clima, a exposição, bem como os parasitas e as doenças. Através da seleção natural, apenas as variedades mais robustas conseguirão sobreviver. Numa região com invernos rigorosos, terão de ser bem rústicas e florescer depois de afastado o risco das últimas geadas. Numa região húmida, terão de resistir às doenças criptogâmicas (causadas por fungos).
As pereiras antigas e locais estão, assim, naturalmente adaptadas a um meio e são resistentes a estas condições. É, portanto, sobretudo por esta razão que é interessante dar-lhes prioridade no jardim: ao escolher uma variedade que cresce na nossa região, garantimos que está adaptada para suportar as condições de cultivo locais. Necessitará, assim, de menos cuidados e de uma menor utilização de produtos.

Pereira ‘Epine du Mas’
Variedades que favorecem a biodiversidade
A natureza baseia-se num equilíbrio perfeito entre todos os seres vivos que a compõem. Cada um tem o seu lugar e favorece o desenvolvimento de uns ou limita a proliferação de outros. As plantas indígenas, originárias de um determinado meio, integram-se plenamente neste equilíbrio, por vezes precário. No caso das pereiras, a sua floração vai beneficiar os insetos locais e favorecer a polinização de outras plantas locais, enquanto a sua frutificação vai servir de alimento às aves e aos outros animais presentes nesse meio, etc. Neste sentido, a escolha de uma variedade local é benéfica para a biodiversidade do território.
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Escolher bem a pereira: o nosso guia de compraUm património cultural e gastronómico a não descurar
Preservar as pereiras antigas e locais é, antes de mais, uma questão de diversidade alimentar. Permite redescobrir sabores e texturas diferentes, evitar a uniformização do gosto e recordar os «sabores de outros tempos». É também uma forma de valorizar um território e receitas antigas, sendo algumas peras utilizadas em pratos típicos. É o caso do paté de peras da Todos-os-Santos, indissociável do património dos Pays de Caux e de Bray, que é confecionado com a ‘Poire de Fisée’.
Além disso, estas peras, também conhecidas como «peras camponesas», são portadoras de um património genético que seria lamentável deixar extinguir-se. O seu estudo permite pôr em evidência determinadas capacidades de adaptação e revela-se igualmente útil para obter novas variedades.

Pereira ‘Figue d’Alençon’
Quais são as variedades antigas e locais de pereira?
As pereiras antigas podem ser adquiridas em centros de jardinagem em linha (como a Promesse de Fleurs), mas também junto de viveiristas ou de cultivadores locais. Algumas associações fazem também da preservação das fruteiras locais e antigas a sua forma de lança. Por fim, existem pomares de conservação, que dão precisamente destaque às variedades que correm o risco de desaparecer.
- ‘Beurre Hardy’ produz peras de polpa particularmente fundente. A sua entrada em frutificação é um pouco demorada, mas depois revela-se bastante generosa. Os frutos são sumarentos, doces e muito aromáticos. A colheita ocorre entre setembro e outubro.
- ‘Doyenné du Comice’ oferece frutos grandes e bojudo, de cor verde matizada de amarelo. A sua polpa é sumarenta e saborosa. Estas peras são colhidas no início do outono e conservam-se bem.
- A pereira ‘St Jean’ é uma das variedades mais precoces, cuja colheita ocorre de meados de junho a julho. Produz frutos de tamanho médio, bem bojudo, de polpa sumarenta e doce, com notas de almíscar. Devem ser consumidos ou transformados rapidamente após a colheita.
- ‘Duchesse d’Angoulême’ é uma variedade de colheita tardia, que ocorre em outubro-novembro. Tem a vantagem de poder crescer até 1 000 metros de altitude. Os seus frutos grandes e redondos têm uma polpa semifina, doce e fundente. Conservam-se bem.
- ‘Doyenné d’hiver’ ou ‘Bergamote de Pentecôte’ é uma variedade antiga e tardia, de origem belga. Os seus frutos amadurecem entre dezembro e janeiro e podem conservar-se até abril. As peras são grandes, de cor amarela com tons acastanhados. A sua polpa é fina, fundente, doce e ligeiramente granulosa. Ideais para comer ou cozinhar.
- ‘Épine du Mas’ ou ‘Duc de Bordeaux’ produz frutos de pele amarelo-esverdeada, matizada de rosa no lado exposto ao sol. A sua polpa é delicadamente aromática, acidulada e rica em açúcar. É uma pera perfeita para consumir ao natural, mas que também pode ser cozinhada. A colheita ocorre a partir de outubro.
- ‘Marguerite Marillat’ é uma variedade antiga que produz peras enormes, podendo pesar cerca de 700 gramas. O seu sabor combina notas doces e aciduladas. A colheita ocorre no início do outono. Ideais tanto para consumir cruas como cozinhadas.
- ‘Sœur Grégoire’ oferece peras grandes e rugosas, que têm a vantagem de possuir muito poucas sementes. A colheita realiza-se em novembro, podendo conservar-se até janeiro.
- ‘Figue d’Alençon’ é uma variedade antiga originária da Normandia. Deve o seu nome à forma dos frutos, que faz lembrar um figo. É uma pera que se conserva muito bem e pode ser guardada até meados de fevereiro. Em termos de sabor, é fundente, ligeiramente granulosa e um pouco áspera quando os frutos ainda são jovens.
- ‘Poirier Curé’ é uma variedade tardia, que amadurece em dezembro-janeiro. Os seus frutos são de grande calibre e têm uma pele espessa. A polpa, sumarenta, doce e acidulada, pode revelar uma ligeira aspereza. Uma pera para saborear crua ou cozinhada.
- A ‘Poire de Fisée’ produz frutos pequenos, muito conhecidos na Normandia e na Picardia. É uma pera para consumir cozinhada, podendo ser utilizada tanto em tartes como em compotas ou purés. A colheita ocorre entre outubro e novembro.
- A pereira para sidra de pera ‘Fausset’ é bastante comum na Normandia. Como o nome indica, as suas peras pequenas são utilizadas para a transformação em sumo e em bebida alcoólica. A colheita ocorre em novembro. É uma variedade com uma longa duração de vida.
- ‘Plant de Blanc’ é outra variedade antiga de pereira para sidra de pera, frequentemente encontrada na região da Normandia. As suas peras pequenas, semelhantes a maçãs, são transformadas numa bebida. Colheita em outubro.

Pereira ‘Sœur Grégoire’
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