Adaptar-se às alterações climáticas: as plantas e práticas a adotar no jardim
Para jardins mais resilientes face às alterações climáticas
Resumo
As alterações climáticas e as suas consequências para o ambiente são cada vez mais percetíveis. Secas, inundações, vagas de calor repetidas, proliferação de espécies invasoras e aparecimento de novas doenças e pragas: os jardineiros têm agora de enfrentar situações inéditas. Obrigados a repensar a escolha das plantas, adaptam-se a esta nova realidade e voltam-se para a RESILIÊNCIA.
O que significa aplicar a resiliência à jardinagem? Num jardim resiliente, as plantas pioneiras ocupam qualquer espaço vazio e é altura de apostar em plantas pouco exigentes, melíferas e resistentes aos fenómenos climáticos extremos. Combinando consciência ecológica e capacidade de adaptação, este tipo de jardim procura minimizar os impactos das perturbações meteorológicas que fragilizam o microclima em que o jardim se encontra. Como criar um jardim resiliente? Quais são as plantas indispensáveis para criar este pequeno refúgio vegetal, capaz de enfrentar o aquecimento climático? Damos-lhe algumas orientações!
Ver o jardim de outra forma
Há que aceitar a ideia: o jardim deve, mais do que nunca, adaptar-se às alterações climáticas. As projeções do clima futuro indicam um avanço da floresta mediterrânica em direção ao vale do Ródano. A estepe ameaça a região mediterrânica e algumas árvores meridionais, como a azinheira, começaram a migrar para a fachada atlântica. É essencial repensar a forma como planeamos e cuidamos dos nossos jardins. Encarar o jardim de outra forma significa adotar práticas sustentáveis e uma abordagem ecossistémica, tendo em conta as interações entre as plantas, os animais e o meio. Atualmente, mais de um em cada dois jardins é afetado pela seca. Consequentemente, a tendência é para a criação de jardins secos, sem rega ou com muito pouca rega. Uma seleção de plantas resistentes à seca, que exigem poucos cuidados e capazes de florescer mesmo durante a canícula, dá lugar a um jardim adaptável, que favorece a biodiversidade.

As plantas adaptadas à seca são ideais para criar um jardim resiliente. Aqui, agaves, séduns e Dasylirion
O que é um jardim resiliente?
A resiliência na jardinagem refere-se à capacidade de um jardim para se adaptar e recuperar de perturbações e alterações ambientais, como secas, inundações, doenças e pragas. Um jardim resiliente inclui a plantação de variedades de plantas resistentes, a criação de habitats para polinizadores e predadores naturais e a adoção de práticas sustentáveis de compostagem e cobertura morta, por exemplo, para melhorar a saúde dos solos. Os seus desafios são múltiplos: preservar a biodiversidade, adaptar-se às novas condições climáticas, otimizar a utilização dos recursos (água, solo, energia) e limitar os produtos químicos utilizados (pesticidas, adubos). Tem como objetivos:
- Favorecer o cultivo de plantas robustas, resistentes à seca, às temperaturas elevadas e às doenças, como as plantas pioneiras, conhecidas pela sua capacidade de resistir e de se adaptar, ou as plantas nativars (cultivares derivados de uma planta indígena ou nativa), naturalmente menos exigentes.
- Dar prioridade à biodiversidade: sendo um elemento-chave da resiliência dos ecossistemas, promove-se a biodiversidade no jardim, dando prioridade às plantas melíferas e indígenas, que atraem os polinizadores e oferecem abrigo às aves e aos insetos. Crie biótopos variados (sebes, pilhas de madeira, hotéis para insetos) para acolher uma fauna diversificada.
- Adotar técnicas de cultivo ecológicas: a cobertura morta, a compostagem, a rotação de culturas, a permacultura e as associações de plantas permitem preservar a fertilidade do solo, limitar a evaporação da água e reduzir a utilização de produtos fitossanitários. Estes métodos de jardinagem responsável contribuem também para criar um equilíbrio natural no jardim, favorecendo a presença de organismos auxiliares (insetos, aves e ouriços-cacheiros) que regulam as populações de pragas.
- Gerir a água de forma otimizada: é importante utilizar a água de forma responsável no jardim. Dê prioridade às plantas adaptadas às condições climáticas da sua região, que necessitam de menos rega. Recolha a água da chuva. Considere também a criação de zonas húmidas ou de lagos, que favorecem a biodiversidade e contribuem para a regulação do ciclo da água.
- Limitar as superfícies impermeáveis: caminhos, terraços e pavimentos contribuem para a impermeabilização dos solos, o aumento do escoamento superficial e a poluição das águas. Para limitar estes impactos, dê prioridade aos revestimentos permeáveis (cascalho, lajes relvadas) e cubra de vegetação os espaços disponíveis (telhado verde, muros, taludes).

Algumas técnicas para tornar o seu jardim mais resiliente: aplicar cobertura morta para manter o solo fresco e colocar oyas junto às plantas, instalar hotéis para insetos e recolher a água da chuva para regar o jardim
Para que tipo de jardim?
O jardim resiliente recria um ecossistema equilibrado, autónomo e sustentável e pode ser adotado nos seguintes tipos de jardim:
- Jardins naturais ou selvagens: Os jardins resilientes inspiram-se frequentemente nos ecossistemas naturais e dão preferência a plantas autóctones e melíferas. Favorecem a biodiversidade e limitam as intervenções humanas.
- Jardins ecológicos: Os jardins ecológicos dão prioridade à preservação do ambiente e à redução da pegada ecológica. Os jardins resilientes integram-se nesta abordagem através da utilização de técnicas de jardinagem sustentáveis, como a permacultura, a compostagem e o aproveitamento da água da chuva.
- Jardins secos ou mediterrânicos: Nas regiões sujeitas a condições climáticas áridas ou mediterrânicas, os jardins resilientes dão prioridade a plantas adaptadas à seca e que exigem pouca manutenção. São concebidos para resistir aos períodos de seca e otimizar a utilização da água.
- Jardins urbanos ou de pequenos espaços: Os jardins resilientes também podem ser instalados em espaços reduzidos, como varandas, terraços ou pequenos jardins urbanos. Permitem criar oásis de vegetação e biodiversidade na cidade, adaptando-se simultaneamente às limitações específicas destes ambientes (poluição, falta de espaço, etc.).
- Hortas: Os jardins resilientes podem integrar espaços de cultivo de hortícolas, dando prioridade a variedades antigas, plantas adaptadas ao clima local e associações vegetais benéficas. Favorecem, assim, a autonomia alimentar e a preservação da biodiversidade cultivada.

Os jardins naturalistas são particularmente resilientes. Associam uma grande diversidade de flores melíferas e favorecem a biodiversidade.
Que plantas escolher?
As plantas que escolher para o jardim resiliente devem, naturalmente, estar adaptadas às condições climáticas locais. É importante ter em conta as condições específicas do jardim (exposição, tipo de solo, etc.), a rusticidade, a tolerância à seca, a resistência às doenças e às pragas, a capacidade de adaptação aos solos e as reduzidas necessidades de manutenção das plantas consideradas. Eis algumas plantas (árvores, arbustos ou perenes) entre as mais resilientes:
- As plantas pioneiras: presentes naturalmente numa determinada região, evoluíram para se adaptarem às condições climáticas locais. Necessitando de poucos cuidados, as plantas pioneiras são as primeiras a criar raízes em terrenos hostis ou estéreis. Bétulas, borrazeira-negra (Salix caprea), pinheiros (pinheiro-de-alepo), giestas, estevas, gramíneas, amieiros, paulónias, clematides-brancas (clematide Vitalba ), espinheiro-marítimo, sanguinhos, perpétuas, Silene vulgaris, colonizam o mais pequeno interstício nos solos mais pobres. A sua presença atrai insetos polinizadores, aves e até mamíferos, enriquecendo assim o ecossistema.→ Saiba mais no nosso artigo Em foco: as plantas pioneiras, preciosas para a biodiversidade.
- Os nativars: são cultivares derivados de uma planta indígena (ou nativa), selecionada pelas suas qualidades hortícolas. Estas variedades modernas estão adaptadas às condições climáticas locais, o que as torna mais resistentes às doenças, às pragas e aos fatores de stress ambiental. Os nativars são naturalmente menos exigentes: valeriana-vermelha, Thalictrum aquilegifolium, alquemila, margarida, gerânio-dos-prados ‘Mrs Kendall Clark’, botão-de-ouro, Lychnis flos-cuculi ‘Petite Jenny’, Geranium pratense ‘Dark eyes’, pulmonária saccharata ‘Dora Bielefeld’.
- As plantas resistentes à seca: Santolina chamaecyparissus, sálvias-de-Jerusalém, verbascos, acanto, mas também gauras, séduns, sálvias-russas, alfazemas ou cactos e plantas suculentas (figueiras-da-índia, rosetas de ensaião ou tasneira), agaves, hesperaloe parviflora ‘Rubra’, ceanotos e budleia ‘Orange sceptre’, no grupo dos arbustos campeões da poupança de água, adaptam-se à evolução dos nossos climas locais, evocando as terras áridas. Necessitam de muito pouca rega e estão mais bem adaptadas aos períodos de seca.
- As plantas melíferas: Produzem néctar e pólen, atraindo polinizadores como abelhas, borboletas e aves. Além de favorecerem a biodiversidade, contribuem para a polinização das plantas hortícolas e fruteiras, melhorando assim a produção de frutos e legumes. A roseira brava (Rosa canina), o pilriteiro, as urzes, o alecrim (Rosmarinus officinalis), as agastaches, a verbena de Buenos Aires (Verbena bonariensis), o Caryopteris clandonensis. O ceanoto ‘Burkwoodii’, o Cytisus scoparius ‘Palette‘ ou ainda o filadelfo Philadelphus coronarius fazem também parte dos arbustos melíferos mais bem adaptados à falta de água.
- As plantas comestíveis: Têm a particularidade de serem simultaneamente comestíveis e ornamentais, podendo ser utilizadas na cozinha. A sua presença promove uma maior diversidade no jardim e atrai os polinizadores. Entre estas plantas preciosas, tão bonitas como saborosas: a alfazema, a capuchinha ‘Baby Rose’, a borragem-comum, o amaranto vermelho, a calêndula (Calendula officinalis), o feijoeiro-escarlate trepador ‘Sunset‘, o girassol ‘Desire Red F1’, a alcachofra, o jacatupé ou ainda a madressilva-azul ‘Altaj’, uma madressilva que produz bagas comestíveis semelhantes aos mirtilos.

Alguns exemplos de plantas resistentes à seca: Phlomis fruticosa, Gaura lindheimeri ‘Snowbird’, Delosperma cooperi ‘Wheels of Wonder Fire’, alfazema, Opuntia microdasys (fotografia: Stan Shebs) e Centranthus ruber
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